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domingo, 12 de agosto de 2012

O Ensino e a História



 By Ivani Medina

Um simples e corriqueiro acidente de trânsito é capaz de gerar diversas versões sobre um fato que levou apenas uns poucos segundos. É próprio da natureza humana e perfeitamente justificável que isso aconteça. Dependendo do ângulo de visão a impressão muda e é justamente com o passar do tempo que o esclarecimento amadurece e se completa pondo fim às discussões. Por que, justamente, com o evento mais importante da história ocidental, cujo início teria durado praticamente um século inteiro, contamos apenas com uma versão? Por que até hoje se discute essa versão? Será que houve um dia em que tenha havido no mundo um único acidente de transito e a atenção mundial tenha se voltado exclusivamente para ele?

A história nunca parou para dar passagem a ninguém. Foi parada.

Estudar o passado é atribuição especial da história, que é parte literatura e parte ciência; não é preciso dizer que os historiadores dessa época interessavam-se vivamente pelo passado, imediato ou remoto, dos próprios gregos e dos chamados “bárbaros”; também não ignoravam a história da sua própria época. Inúmeros autores, alguns dos quais participaram dos incidentes que descreveram, redigiram a história do reino de Alexandre. As monarquias helenísticas e as cidades gregas, individualmente, também tiveram seus historiógrafos.
[...] os livros entraram nas casas particulares e nas famílias, o que promoveu o comércio de livros e lançou os alicerces para os empreendimentos editoriais. A ubiquidade dos livros na vida dos gregos helenísticos é claramente provada pelas descobertas de livros ou folhas esparsas nas casas particulares e nos túmulos dos gregos que nas cidades ou mesmo nas aldeias do Egito.

ROSTOVTZEFF, Michael Ivanovich, História da Grécia, Zahar Editores, Rio de Janeiro, segunda edição, 1977, p. 295.


Não é de se dizer que não possuímos outras versões pela falta de interesse de historiadores e escritores ou pela falta de meios de se angariar leitores. Também em Roma, no século I, o interesse pela documentação de costumes, ciência e política levou escritores como Plínio o Velho a redigir sua enciclopédia História Natural. Lia-se e escrevia-se muito, pois o índice de alfabetização deveria ser alto, se comparado ao século anterior da chegada de grande número de escravos anatolianos (gregos orientais) a partir do final do último século antes da era comum. Estes eram mercadorias valiosas, indivíduos cultos e profissionalmente especializados que se multiplicaram naquela cidade. Foram eles que transformaram Roma numa cidade esplendorosa, com seus conhecimentos e habilidades. O entusiasmo do poeta romano Ovídio (43 a.e.c. - 17 e.c.) se refere a isto em sua obra A Arte de Amar:

Outrora reinava uma simplicidade rústica; Roma está agora resplandecente de ouro e possui as imensas riquezas do mundo que ela domina. Observa o Capitólio de hoje e o de outrora; dir-se-ia que era consagrado a um outro Júpiter. Hoje a Cúria é verdadeiramente digna de uma tão nobre assembleia: era de palha quando o rei Tasso exercia o poder. O Palatino, onde se erguem brilhantes edifícios, sob a proteção de Apolo e dos nossos chefes, que era então? Uma pastagem para bois de trabalho.

Que outros guardem as suas simpatias para o passado. Eu congratulo-me por ter vindo ao mundo agora. Esta idade condiz com meu gosto. [...]. É porque temos cuidado com o corpo e o nosso tempo não conhece já essa rusticidade que longos anos sobreviveram aos nossos antigos avós.

A superioridade cultural grega era irrefutável em todos os sentidos. Escolas profissionalizantes também foram instituídas, porque um escravo alfabetizado alcançava um preço mais alto no aluguel ou na venda. No final do século I a maioria esmagadora da população de Roma era de origem grega, daí o aspecto bilíngue daquela cidade na ocasião.

Decididamente, outras versões dessa passagem da história não nos chegaram por falta de quem não as documentasse ou por elas se interessassem. A educação é também um instrumento político para a preservação de interesses e por este ângulo também deve ser analisada: nos primeiros anos da República Romana a educação dos filhos ficava a cargo dos pais, que lhes incutiam as tradicionais virtudes romanas a serem decoradas nas Doze Tábuas, fonte de todas as leis romanas. Os jovens seguiam os pais em toda parte como complementação do ensinamento prático.
Nos séculos II e III a.e.c., ainda que as antigas tradições familiares persistissem, o avanço romano sobre o mundo grego começou a levar para Roma escravos mais cultos do que seus dominadores e uma grande transformação se inicia na educação romana, quando escravos e libertos gregos tornaram-se professores em Roma.
Houve resistência a essa novidade da parte dos censores romanos, que defendiam as tradições romanas também na agricultura, nas leis, medicina e estudos militares. Um desses defensores mais conhecidos foi Catão o Antigo. Romanos como ele sabiam que a projeção de tal situação não estaria isenta de interesses políticos implícitos – ainda mais da parte dos inventores da arte da política - e de uma dominação silenciosa mais poderosa do que todos os exércitos romanos juntos. Mais uma vez, os gregos venceriam com uma nova versão do Cavalo de Tróia deixada aos romanos pelo destino.
A dissolução dos valores tradicionais romanos levou consigo a antiga importância da educação, tanto grega quanto romana, pois uma nova classe média havia se instituído, em substituição àquela de origem latina, numa sociedade minada pela corrupção. A decadência no ensino acompanhou esse movimento e se inicia na última parte do III ou no início do IV século da e.c., segundo Monroe.
A educação da igreja cristã estava gradualmente substituindo a educação elaborada pelos romanos, com o material que tomaram emprestados aos gregos. O grande mérito da adaptação romana tinha sido sua íntima relação com as necessidades práticas de vida política e institucional. Agora tudo estava perdido. Quando a importância prática de uma educação se perde, nada mais fica.
 MONROE, Paul, História da Educação, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1978, p. 91.

A educação elaborada pelos verdadeiros romanos havia consumado a sua agonia no século I. Monroe se refere, naturalmente, a educação ministrada em Roma que nada tinha a ver com a tradicional educação romana e os romanos tradicionais. Os romanos que já tinham a fama de maus levaram também a fama de corruptos, por causa de uma Roma grega, depois de corrompidos pelos seus dominados. Cicero deplorava os gregos orientais, os anatolianos.

Essa história não foi claramente contada por conveniência política e cultural. Fala-se em “influência grega” como se estivesse tudo muito bem explicado. Toda responsabilidade foi imputada aos romanos sem que as causas fossem esclarecidas, para dar ênfase à história dos perversos romanos contra os inocentes cristãos, quando a má fama daqueles foi sabiamente explorada. Mas, não há inocentes nessa história e os cristãos não nasciam em árvores, eram gregos.

Quando se compara a moral grega com a cristã verifica-se que há uma diferença radical entre ambas, mas que podem consagrar-se numa obra de plena realização humana. A moral grega baseia-se na noção de prépon, ou seja, um homem para ser um homem, e, portanto para viver como ser racional, tem o dever para consigo mesmo de ser belo aos próprios olhos e aos olhos dos outros, isto é, deve procurar alcançar um alto nível de vida moral que constitui a beleza por excelência.
A moral cristã baseia-se na noção de pecado, de ofensa ou falta contra Deus e que por Ele é punida, de modo que o temor de Deus, o temor do seu juízo e da sua punição, constitui a mola primordial dessa moral. Ora, podem conciliar-se perfeitamente os dois ideais, de forma que o objetivo natural e humano enaltecido pelos gregos seja coroado pela meta sobrenatural e pelo critério evangélico da moral cristã.
NUNES, p. 22). NUNES, Ruy Afonso da Costa, História da Educação na Antiguidade Cristã, Editora Pedagógica Universitária e Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1978, p. 180.

Até hoje não foi apresentada uma única evidência da origem judaica do cristianismo. Senão as forjadas. Para o judaísmo o cristianismo é de origem pagã. A igreja primitiva era grega e continuou ao leme da cultura cristã até Constantinopla. As palavras mais autênticas do Senhor dos Evangelhos não são as palavras judaicas, mas sim as não judaicas e as antijudaicas. (Ethelbert Stauffer) LÄPPLE, Alfred, As Origens da Bíblia, Editora Vozes, Petrópolis, 1973, p. 84.

O historiador judeu H.J. Schoeps, tomando posição no debate sobre Paulo judeu ou grego, defende a seguinte tese: o judaísmo helenístico caracteriza cultural e religiosamente Paulo. A escatologia paulina está ligada às especulações apocalípticas dos dois éons e à expectativa messiânica do mundo judeu, com a diferença que a fé no Jesus morto e ressuscitado diz a Paulo que o Messias já veio ao mundo e que a virada decisiva na história já ocorreu, salva a esperança no regresso de cristo e na irrupção do Reino de Deus. E tudo aquilo que se relaciona com esse titulo (encarnação, mística, da união ao cristo morto e ressuscitado, realismo sacramental) são estranhos ao judaísmo e têm origem pagã. A crítica paulina à Lei é propriamente falando um mal-entendido: o judaísmo não conhece o dilema fé/obras, nem isola, como o faz Paulo, a lei da aliança.

 GARBAGLIO, Giuseppe, São Paulo – O homem do evangelho, Editora Vozes, Petrópolis, 1971, p. 286 e 287.  

As causas para a reação grega contra romanos e judeus são reais. Perfeitamente conclusivas, porque quando a gente sabe o que procura, os livros acabam contando. Os mesmos livros que confirmam a versão oficial ou em outros poucos livros que não a contrariam por prudência.

[...] no primeiro século da Era Comum, a população judaica que, de acordo com várias estimativas autorizadas, situava-se entre cinco e sete milhões. Esse aumento da população tornou-se possível porque: 1) Os judeus encorajavam o crescimento populacional; 2) Eram elemento econômico útil, produtivo e valioso na sociedade romana, e por conseguinte tinham permissão para viver em relativa segurança; 3) Emigravam voluntariamente, espalhando-se pelas terras e ilhas da Bacia Mediterrânea, sendo essas migrações especialmente frequentes durante e após o período helenístico; 4) Os governantes gregos (os Ptolomeus, por exemplo) e romanos valorizavam os judeus como colonos por sua habilidade, diligência e confiabilidade; frequentemente os empregavam para a abertura de novos territórios; 5) A prática judaica de resgatar irmãos cativos e o proselitismo judeu – uma prática característica desse período – foram também fatores do crescimento e da difusão da população judaica; 6) Por fim, mas não com menos importância, os judeus manifestavam notável capacidade de resistência à assimilação. Essa resistência arraigava-se em sua profunda lealdade a uma monocracia e a um livro de leis, não sendo confinada a nenhuma localidade. Tal lealdade seria observada por toda parte. (professor Uriah Zevi Engelman)

CENTRO BRASILEIRO de ESTUDOS JUDAICOS da FACULDADE de FILOSOFIA, LETRAS e CIÊNCIAS HUMANAS da UNIVERSIDADE de SÃO PAULO, organização: Prof. Henrique Rattner, Nos caminhos da Diáspora, S. Paulo, 1972, p. 22 e 23.

O mundo hoje poderia ser judeu. Júlio Cesar concedera proteção ao judaísmo pelo estado romano, o que significa um privilégio legal que independia da vontade dos imperadores por não se tratar de um compromisso pessoal daquele príncipe. O proselitismo judeu avançava o que não era visto com bons olhos pelos gregos.

A área da dispersão é considerável! Foi possível avaliar em 8 milhões a população judaica mundial na época helenística. Ela está principalmente agrupada em 4 zonas: Babilônia, Síria, Anatólia, Egito, possuindo cada uma delas mais de 1 milhão de judeus. Mas encontram-se igualmente em grande número na Cirenaica, nas ilhas do Egeu, na Grécia e até na África, na Itália, na Hispânia. Registram-se conversões por toda parte - sobretudo das mulheres, porque muitos homens consideravam a circuncisão repugnante – e forma-se uma categoria de meio-convertidos, os sebómenoi (os que temem a Deus).

LÉVEQUÊ, Pierre, O Mundo Helenístico, Lisboa, Edições 70, 1967, p. 50.                            

A perseguição aos judeus se iniciou no século IV, antes de os ensinamentos cristãos ganharem as escolas como apoio do governo, nesse mesmo século. O judaísmo falso criado pelos gregos contava com o acostamento do governo para o seu progresso com a destinação de verbas e a contenção do judaísmo adversário por intermédio de decretos governamentais. Pretendendo mais do que o status de religio licita, obtido pelo judaísmo com a garantida pelas leis romanas, para tornar-se parte do governo e editar suas próprias leis.

Jesus Cristo definido como “Divindade da Divindade, Luz da Luz, Verdadeiro Deus do Verdadeiro Deus, consubstancial ao pai”, a histeria antijudaica redobrou o seu furor e a acusação mais corrente que se fazia aos judeus era de “deicidas”. Tudo começou em 18 de outubro de 315, quando Constantino proibiu os judeus de adotarem medidas contra seus correligionários convertidos ao cristianismo, na mesma ocasião que ele próprio tomou medidas para desencorajar os cristãos de se converterem ao judaísmo.

MESSADIÉ, Gerald, História Geral do Anti-Semitismo, Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2003, p. 150 e 151.


Os inimigos da história e amigos do cristianismo apagaram a maior parte dos vestígios dos fatos que conduziriam naturalmente a outras versões ou a outros acidentes de trânsito, retomando o exemplo inicial. Até hoje a versão oficial não satisfaz. No lugar dos elementos que estimulariam o pensamento, deixaram a bíblia para contar o que houve. A fé substituiu a história, mas nem todos aceitaram isto. Esse é um grande problema por ser antinatural.

Em reação a uma interpretação demasiado óbvia e ingenuamente histórica da Sagrada Escritura, preferiu-se um outro conceito da Bíblia que equivale a uma espécie de emigração para dentro, isto é, uma aplicação da Bíblia à própria pessoa à fé intima do homem. Depois que se difundiu por toda parte o ceticismo histórico, baseado nas conclusões do método histórico-formal, fechou-se por completo a porta de acesso ao Jesus histórico e pós-pascal. [...] Gerhard Ebeling vê precisamente na continuidade o articulus stantis et cadentis Ecclesiae, isto é, o artigo do qual depende a Igreja ou sem o qual ela desaparece, quando diz: Se Jesus não existiu ou se a fé n’Ele fosse um equivoco dos que acreditaram no Jesus histórico, destruir-se-ia toda a base da fé cristã.

LÄPPLE, Alfred, As Origens da Bíblia, Editora Vozes, Petrópolis, 1973, p. 13 e 14.

Os adeptos da versão oficial da origem do cristianismo classificam a face conhecida da sua verdadeira história de “erros humanos”. Como se fosse possível separar este joio histórico do trigo idealizado da eucaristia literária, que só existiu em palavras. Põem de lado os fatos para apelarem aos princípios enaltecidos pela pregação religiosa, pois estes são muito mais bonitos do que os que a história verdadeiramente documentada oferece.

O historiador não avança sozinho ao encontro do passado. Aborda-o como representante do seu grupo.

MARROU, Henri Irénée, Do Conhecimento Histórico, Editorial Áster, Lisboa, 2a edição, p. 256.

Ironicamente, a última execução do tribunal da Santa Inquisição foi a de um professor, chamado Cayetano Ripoll, realizada em Valencia, na Espanha, em 1826. Portanto, em pleno século XIX. É interessante que esse capítulo da história do cristianismo, e não somente da história da Igreja como querem alguns, terminasse com um professor que estava se afastando do catolicismo e não levou seus alunos a missa. Garantir que os alunos deem continuidade à cultura religiosa cristã – na época ainda representada pela força do catolicismo na Espanha – era e continua sendo a função precípua do professor.

Diante da expectativa da nossa cultura, para aqueles que escolheram o ofício de educar, o aconselhamento do professor Marrou aos futuros historiadores, para que se dirijam ao passado como representantes do seu grupo, faz todo sentido. As palavras expressadas abaixo por um homem da igreja, longe de representarem uma opinião isolada, mostram a realidade de uma prática institucional terrorista que predominou séculos a fio e alguns ainda a desejam de volta.

Somente o colégio dos pastores tem o direito de dirigir e governar. A massa não tem direitos, a não ser o de deixar-se governar qual um rebanho obediente que segue o seu pastor. (Papa Pio X, 1835-1914)

EYMERICH, Nicolau, Manual dos Inquisidores, Ed. Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro, 1993, p. 22.

Portanto, a própria história explica porque existem doutores e pós-doutores historiadores ensinando história de acordo com a bíblia. 

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