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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Homem de Babel



By Leonardo Levi
Os piores segredos escondem-se sob as mais inocentes formas, ou melhor, ilusões.

Quem o vê, alimentando-se de sobras, nos sacos de lixo, que ele disputa em sucessivas e desesperadas batalhas com os cães de rua; quem o vê, implorando, com gestos suplicantes por esmolas; quem o vê trajando trapos que conseguiu a muitos anos e exalando de seu corpo o odor fétido que afasta a maioria da sociedade, jamais poderia supor, que por trás da aparência repugnante e frágil, esconde-se algo terrível...

Ele vaga pelos becos imundos, dorme em cantos frios e sua única companhia são os ratos, as baratas e os vermes que lentamente vão consumindo seu corpo enfraquecido pelos muitos anos de vida indigente.

Poucos sabem o que ele foi, mas não fazem esforços para lembrarem-se...

E talvez seja mesmo melhor o esquecimento. Pois tudo o que sobrou são memórias, que ele tenta com todas as forças que lhe restaram, afastar para sempre. Uma boa garrafa de álcool ajuda, mas no dia seguinte, as lembranças voltam, e como fantasmas, assombram sua alma.

A morte parece fugir dele, talvez até mesmo ela possa sentir o horror que um dia, por ele foi provocado.

Inúmeras vezes tentou atirar-se de pontes, uma mais alta que a outra, mas em vão. Seu corpo foi queimado, mutilado, atropelado, entretanto, ainda resiste.

Ele sente fome, e então, bebe mais um gole de sua inseparável garrafa. E talvez, o pior de tudo seja a lucidez.

A consciência de quão horrendos foram seus atos.

Deus o abandonara e sua vida transformou-se num eterno purgatório, pagando pelo pecado de ser o que ele é...

Não importa o quanto tente, o passado ainda está presente nos obscuros caminhos de sua mente.

Lembrou-se mais uma vez daquele dia fatídico, no qual, ao acordar de um pesadelo terrível, parecia prever o que viria depois.

Tudo parecia tão nítido, as vozes ecoam em seu cérebro. Enquanto relembra, sorri amargamente e bebe mais um gole. Que desce por sua garganta e chega ao estômago, onde agita-se furiosamente, provocando-lhe sensações ao mesmo tempo desagradáveis e satisfatórias. Seria masoquismo?

Enquanto essa questão, que afasta-lhe os pensamentos sombrios, começa a usar toda a sua capacidade de raciocínio, toma mais uma vez uma porção do líquido quente para relaxar.

Líquido este, que mais uma vez, enche sua boca desdentada, sente o gosto amargo com sua língua purulenta e começa a descer pela garganta que tantas coisas já engoliu, porém, dessa vez não continua seu trajeto...

Está engasgado, não consegue respirar, leva as mãos sujas ao pescoço, numa tentativa desesperada de encher seus pulmões com o ar poluído da metrópole. Mas é inútil, como quase tudo que faz...

Precisa de ajuda, então, levanta-se do lugar onde jazia, juntamente com outros pobres infelizes como ele.

As pessoas na rua passam evitando-o, como se não existisse realmente. Ele faz gestos freneticamente, mas a voz não sai.

Sente um desespero profundo, que logo torna-se pânico, mas a única coisa que lhe dá atenção é uma pequena garotinha, que com um pirulito numa das pequenas mãos, observa atentamente os movimentos do velho feio e engraçado que agita-se nervosamente em sua frente, com os olhos vermelhos e a cabeça roxa coberta por um chapéu amassado e rasgado.

Ela não entende o que está acontecendo, nunca vira, em seus cinco anos, nada semelhante.

O velho sente que vai morrer, aquilo que procurou incessantemente, finalmente chegou, e aquela garotinha só podia ser o anjo que o guiaria até o céu. Um misto de alegria e dor invade seu espírito.

Mais uma ilusão... Quando já sentia seu corpo mais leve, em jatos rápidos, uma mistura pastosa e quente, composta de ratoburguer e outros restos, regados à bebida barata, sobe por sua garganta.

Ele tenta ainda deter com as mãos, mas por entre seus dedos, a substância abominável, em grande quantidade, acerta em cheio a pequena face que o fitava curiosamente com seus olhinhos.

Sente alívio, enquanto seus seus pulmões estragados, inspiram com fervor a fumaça e os gases da movimentada rua, emitindo ruídos grotescos.

A criança, assustada, com o gesto do velho mau e feio, começa a correr do primeiro “bicho-papão” de verdade de sua jovem existência.

Só então ele percebe o que fez, seu coração começa a bater descompassadamente enquanto se refaz do pequeno contratempo. Não queria fazer aquilo, deseja ardentemente desculpar-se, não era sua intenção, mas o pequeno anjo começa a fugir dele, como todos sempre fazem.

Mas desta vez será diferente, ele jura para si mesmo.

Com suas pernas cansadas, enquanto limpa nas mangas de seus trapos o vômito que ainda escorre, quente, por sua barba espessa, inicia desabalada corrida, mas com passos desajeitados em direção a criança.

Ela sente o monstro aproximando-se, sua mãe sempre dizia para não ficar perto de estranhos, mas onde ela estava agora? Estava perdida e o velho chega cada vez mais perto. Ela sente medo, começa a chorar. Não é tão rápida quanto ele. Suas pernas são muito pequenas...

Ele vê o pequeno ser correr em direção à rua, onde carros, caminhões e outras gigantescas feras de metal correm a altíssimas velocidades, expelindo fumaça negra.

Sente um aperto no coração, cansado de tantas desgraças, quando ouve o grito agudo que o pequeno corpo emite ao ser arremessado longe por um carro. O grito é cortado secamente, com uma pancada no asfalto.

Tudo parece lento aos seus olhos, como no cinema.

Mas no mesmo instante, um sorriso estampa-se em seu rosto, tentando sobressair em meio aos pêlos longos e mal cuidados de sua face...

Logo este sorriso torna-se uma gargalhada, que não pode controlar.

“–De novo não!” – ele pensa

A maldição voltara...

As pessoas da rua estão paralisadas, olhando perplexas a felicidade do lunático sádico.

Mas ele sabe que isso não é verdade, é tudo tão terrível, está nervoso...

Tenta explicar-se, como sempre tentou... Mas mais uma vez é incompreendido...

As idéias percorrem sua mente como relâmpagos e geram palavras desconexas, e tudo que consegue pronunciar é:

“–Bãh! Hi! Hô! Hô! Blurgh! Estra... Estra... Popolousnou... Báh! Hi! Hi!”

Não pode ser verdade, ele sai correndo em meio a multidão que não sabe como agir em meio àquela tragédia.

Mais um dia passa, ele acorda.

Seu nome ele esqueceu. Lembra-se somente de algo com “Jouque” ou Joca ou James. Mas nada faz sentido.

E o que ele menos suporta é a lucidez...

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