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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Sexo dos Anjos... Entrevista com Anja Arcanja - 2° tema: ADULTÉRIO



2° tema: ADULTÉRIO

By Anja Arcanja e Carlos C. Cavalheiro


Muito se diz dos "sexo dos anjos" no sentido de que não tendo esses seres sexualidade, não haveria o que se discutir. Utilizando desse mote, e do uso no nick Anja Arcanja pela teóloga Rozana Madalena F. Souza, conhecida escritora, poeta, blogueira e controvertida e polêmica articulista, pensou-se numa entrevista com temas relativos à sexualidade, discutidos sob a ótica religiosa/teológica. A série de perguntas segue uma dinâmica fixa: cada tema possui três perguntas e três respostas. As perguntas serão todas feitas por Carlos Carvalho Cavalheiro, historiador, teólogo, poeta e folclorista. As respostas serão todas dadas por Anja Arcanja.

Acompanhem conosco o andamento e o resultado deste inusitado trabalho.

Grato

Carlos C. Cavalheiro.

Para quem não viu o primeiro tema segue os links: 



Segundo tema da entrevista: ADULTÉRIO
[Carlos Cavalheiro]
pergunta: Vamos falar agora em adultério. Sei que você tem feito muitos artigos falando dos conceitos de poliamor e de relação aberta dos casais. Por isso, gostaria de provocar a pergunta para esse lado a fim de saber se para você esses conceitos se coadunam com o texto bíblico. Então, vou evocar aqui alguns pensamentos predominantes na teologia mais tradicional para que possa orientar melhor a sua explanação. A princípio, parece-me, o adultério é visto sempre ligado ou relacionado a dois outros princípios, o da monogamia e o da fidelidade. O que quero dizer com isso é que sempre se pensa no adultério como sendo a infidelidade de uma das partes do casal - portanto, um casamento ou relação monogâmica - para com o outro. Muitos teólogos defendem a monogamia baseando-se em diversas passagens bíblicas, incluindo a criação humana (um homem e uma mulher). O que você pensa em relação a tudo isso?

Carlos, devemos sempre fazer uma análise histórico-crítica das passagens bíblicas. E devo primeiramente, discordar de você quando diz que o adultério está relacionado ao princípio da monogamia, pois não está. O povo hebreu nunca foi monogâmico nem monoteísta, era uma nação  que adotava a poligamia e princípios politeístas, que foi mudando conforme fora sendo tratado (se é que posso dizer assim) pelo deus hebreu, mas isto apenas em sua forma de culto, pois jamais o homem hebreu abandonou a poligamia conjugal.

O adultério está muito mais ligado a infidelidade que a monogamia.  Senão vejamos, Abraão teve um filho com a com Agar, Ismael; o rei Davi (o homem segundo o coração de deus) teve várias esposas e algumas concubinas; seu filho, Salomão, teve 700 esposas e 300 concubinas, Jacó, duas esposas e por aí vai, então, a poligamia se analisada no sentido cultural, não é vista como adultério, mas o que é adultério? A infidelidade! Vejamos o que diz o Aulete sobre a palavra adultério:

sm.
  1  Transgressão, nos aspectos moral e legal, da fidelidade conjugal (compromisso de exclusividade recíproca nas relações sexuais dos cônjuges) implícita ou explícita no contrato matrimonial
sm.
  2  P.ext.  Ato de ter relações sexuais com outra pessoa que não o seu próprio cônjuge.; INFIDELIDADE.
  3  Fig.  Junção espúria de elementos contraditórios: O adultério de luz e trevas.
 [F.: Do lat. adulterium, ii.]


Quero ater-me a 1° definição: “Transgressão, nos aspectos moral e legal, da fidelidade conjugal (compromisso de exclusividade recíproca nas relações sexuais dos cônjuges) implícita ou explícita no contrato matrimonial”

Agora vejam os que diz o Aulete sobre o termo aliança:

sf.
  1  Anel de noivado ou de casamento, que é us. por noivo ou noiva, ou por marido ou esposa, para simbolizar o vínculo conjugal.
  2  Pacto ou acordo que define um compromisso entre pessoas ou grupos, uma união ou colaboração para certos propósitos.
  3  Restr.  União conjugal; casamento, matrimônio
  4  União, ligação estável ou harmoniosa entre elementos diversos.
  5  Rel.  Relação entre Deus e um povo, ou a humanidade, concebida como um acordo ou pacto, um compromisso mútuo.
  6  Antr.  Relação social entre famílias ou outros subgrupos sociais, definida de modo mais ou menos convencional pelo fato de haver casamento(s) entre seus membros.

 [F.: Do fr. alliance.]


Vamos nos ater a 2° definição: “Pacto ou acordo que define um compromisso entre pessoas ou grupos, uma união ou colaboração para certos propósitos.”
O QUE É UM CASAMENTO SENÃO UM PACTO, COMPROMISSO ENTRE PESSOAS?

Agora eu pergunto, se meu pacto, compromisso, aliança, permiti-me ou permiti-nos, termos encontros afetivos extraconjugais, em que estaria eu ou meu cônjuge sendo infiel ou estarmos em adultério? Quem nos acusará de quebra de pacto, aliança ou de compromisso?

Penso que a esta altura o leitor pode estar pensando que me baseio no antigo testamento para dar crédito as minhas palavras, e já digo que não, apenas citei o antigo testamento para mostrar que adultério não está intrinsicamente ligado a monogamia e sim a infidelidade.  E quando Jesus faz menção ao adultério no evangelho de Mateus cap 5 versos 27 e 28, ele se refere diretamente ao 10° mandamento e o faz exatamente dando o sentido de infidelidade e não de monogamia.

RÉPLICA

[Carlos Carvalho Cavalheiro] – No entanto, no Evangelho de Mateus, capítulo 19, versículos 4 a 12, que em certas partes são repetição do que já havia sido escrito no capítulo 5, versículos 27 a 32, encontramos o seguinte contexto: Deus fez, desde o princípio, macho e fêmea dos seres humanos para que quando o homem se unisse à sua mulher se tornasse uma só carne. Mas o mais interessante é que o versículo 5 diz: “e serão os dois numa só carne”. E no versículo seguinte, continua dizendo: “Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem”. Bom, essa metáfora da relação sexual que caracteriza de fato a consumação do casamento, não estaria explicitando que, pelos propósitos divinos, o casamento deveria ser monogâmico (só dois, nessa relação), e que a inserção de outro nessa relação caracterizaria o adultério? Entendo que, do ponto de vista humano, se há um consenso entre o casal para a liberdade de manutenção de relação sexual com outros parceiros não caracterizaria, de fato, infidelidade. Mas me parece, pelo que podemos ler na Bíblia, que o casamento – a união matrimonial – tem um sentido e um propósito mais elevado do que simplesmente a satisfação sexual. Permita-me, somente para ampliarmos o debate, citar uma fonte extra-bíblica que traz um outro sentido para o casamento. Trata-se do depoimento do professor Joseph Campbell dado a Bill Moyers no livro “O Poder do Mito”[1]. Diz Campbell:

“O mito lhe dirá o que é o casamento. É a reunião da díade separada. Originariamente, vocês eram um. Vocês agora são dois, no mundo, mas o casamento não é senão o reconhecimento da identidade espiritual. É diferente de um caso de amor, não tem nada a ver com isso. É outro plano mitológico de experiência. Quando as pessoas se casam porque pensam que se trata de um caso amoroso duradouro, divorciam-se logo, porque todos os casos de amor terminam em decepção. Mas o matrimônio é o reconhecimento de uma identidade espiritual”.

Esse trecho, parece se coadunar com o texto bíblico quando Jesus diz que somos dois que nos tornamos um no casamento. Não estaria aí a explicação para os versículos 28 e 32 do capítulo 5 do Evangelho de Mateus, quando Jesus trata o casamento monogâmico de forma tão sagrada que afirma que somente de olhar outra mulher com cobiça já se comete adultério e, também, que quem se casa com quem se divorciou/desquitou, comete adultério?

Por outro lado, os exemplos citados do Antigo Testamento sobre homens que tiveram mais de uma mulher não são exemplos de ampla aceitação divina. Davi cometeu adultério e teve sobre si a ira de Deus e, mesmo depois de perdoado, ainda assim, Deus não permitiu que ele construísse o Templo sagrado. Abraão teve o filho Ismael com a escrava Agar, mas num acordo entre ele e sua esposa Sara. Ainda assim, Deus admoestou a falta de fé de Abraão e, embora não permitisse a morte de Ismael no deserto, não impediu que Agar e seu filho fossem expulsos do convívio do clã. E, o mais interessante, quando a Bíblia diz das 700 mulheres e 300 concubinas de Salomão, em 1 Reis, 11:3 – 6, é exatamente no momento em que diz da “queda” de Salomão, que suas “mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses”. Não seria um sinal de que Deus não é a favor das uniões poligâmicas, apesar de tê-las “tolerado” em alguns momentos da História?
____________________________________
[1] CAMPBELL, Joseph., MOYERS, Bill. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990, p. 06.


RÉPLICA ANJA

Carlos, você descreve trechos do evangelho de Mateus que trata mais especificamente acerca do divórcio e não do adultério.  Observe o verso 3 : Mateus 19:3
3 - Então chegaram ao pé dele os fariseus, tentando-o, e dizendo-lhe: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?

Na verdade, os fariseus tinham em mente era atacar a Jesus, por isto o indagavam-lhe. Existiam naquele tempo, duas escolas que divergiam quanto ao assunto relativo à mulher e ao divórcio. Os mais liberais, que eram seguidores das idéias do rabino Hillel, sustentavam que o homem podia repudiar a sua mulher por qualquer motivo. Os mais conservadores e ortodoxos seguidores do rabino Sammai, afirmavam que o homem só poderia deixar a mulher se encontrasse alguma coisa indecente nela. A intenção não era resolver a questão dessa divergência. A intenção era colocar Jesus numa posição desconfortável diante da lei, dos discípulos e da multidão. Perceba que naquele tempo era permitido ao homem ter mais de uma esposa, e a mulher, não era permitido nada, nenhum direito, nem contadas eram. o rabino Hillel sustentava que o homem poderia por qualquer motivo repudiar a mulher, ao contrário do rabino Sammai, este um pouco mais humano, procurava conceder a mulher um mínimo de segurança, e diante disto, entram em cena os fariseus e Jesus.

Estou de pleno acordo quando você diz que no casamento somos dois que nos tornamos um, pois eu sou uma com meu esposo, mediante o compromisso, o acordo, nossa aliança firmada no cartório na presença de um juiz de paz. Mas insisto, em que isto me impediria de termos firmado que nosso casamento nos dá a liberdade de termos um relacionamento extraconjugal? Seria eu uma com outro homem ao qual mantive um relacionamento afetivo? NÃO! Eu sou uma com meu cônjuge, é com ele que tenho minha aliança, é com ele que sou casada, é com ele que tenho uma identidade espiritual; e repito aqui o que disse na primeira resposta: se meu pacto, compromisso, aliança, permite-me ou permiti-nos, termos encontros afetivos extraconjugais, em que estaria eu ou meu cônjuge sendo infiel ou estarmos em adultério? Quem nos acusará de quebra de pacto, aliança ou de compromisso?

Voltando um pouco mais em relação ao texto de Mateus que você cita, devemos observar que a realidade do casamento hoje em dia, e a realidade no tempo de Jesus eram bem diferentes. E como disse que o texto trata da questão do divórcio, e Jesus deixa bem claro que só é permitido o divórcio em caso de adultério (fornicação), façamos a nós mesmos a seguinte pergunta: Uma mulher se casa, mas seu esposo, que antes do casamento se mostrava tão carinhoso, agora se mostra violento, beberrão, agride os filhos, espanca a mulher, mas, não a trai, ela então estará presa a este homem pelo resto da sua TRISTE vida? Ou pelo menos até que ele a mate? ÓBVIO QUE NÃO! E é por conta de interpretações errôneas que hoje vemos muitas mulheres rogando para que deus assassine seus esposos, pois não mais suportam viver uma vida miserável e serem espancadas. Fiz este breve comentário apenas para mostrar que os casamentos de hoje, são muito diferentes dos casamentos da época de Jesus, e o que foi escrito a dois mil anos atrás, deve ter uma análise histórico-crítica.

As citações de punições de deus aos polígamos do antigo testamento, são exatamente pelo adultério e não por ter mais de uma esposa. Davi, cobiçou a mulher de seu soldado, a tomou para si, fornicou com ela, a engravidou e matou seu marido. Mas está aí o sentido da punição, e não por ele ter outras esposas e algumas concubinas.  Salomão, adulterou contra deus, pois adorou a Astarote, a deusa dos sidônios, e a Milcom, o terrível deus dos amonitas. Ele chegou a construir um templo no Monte das Oliveiras, do outro lado do vale de Jerusalém, para o deus Camos, o deus imoral de Moabe, e outro para Moloque, o deus perverso dos amonitas.  É mais que sabido que o deus hebreu não permite que o seu povo adore outros deuses, e foi exatamente isto que Salomão fez, eis o motivo de sua queda.

E quanto a Abraão? Isto é um capítulo a parte: Sara sendo estéril não deixaria herdeiro. Abraão desposa uma escrava egípcia chamada Ágar com anuência e escolha da própria Sara. Sara engravida aos 90 anos do já ancião Abraão, algo inexplicável pela biologia. Desta concepção nasce Isaque, agora o verdadeiro herdeiro do trono hebreu. Ismael passou a ser filho “bastardo”, ou seja, filho de mãe escrava ou como se diz nos tempos modernos, fruto de “barriga de aluguel”. Desprezados por Sara e pelo filho adolescente Isaque, Sara, enciumada e temerosa de perder a posição de esposa do Rei, exige a expulsão de Ágar e de Ismael, sendo atendido o seu desejo pelo esposo, Abraão que, no entanto, provê o sustento financeiro de Agar e Ismael, garantindo um futuro estável para os dois e da descendência de  Ismael, surgem os árabes, que são inimigos do povo judeu, e até hoje brigam por territórios. Onde está a punição de deus a Abraão? Simplesmente não houve. Mais um motivo para que eu afirme que sendo consensual, não existe nada condenável no relacionamento aberto.

2° parte será publicada em breve... não deixe de acompanhar

link da 2° parte http://omundodaanja.blogspot.com.br/2012/08/ii-parte-o-sexo-dos-anjos-entrevista.html

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