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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Sexo e sexualidade - Entrevista com Anja Arcanja



[Carlos Carvalho Cavalheiro]

– Há um tema que gostaria de refletir com você e que, seguramente, deveríamos ter iniciado com ele essa nossa entrevista. Trata-se de sexo e sexualidade segundo a Bíblia. Peço licença para discorrer um pouco sobre o que quero debater para que fique mais claro no momento em que fizer as perguntas pertinentes ao tema. Considero que a Bíblia, como livro sagrado – no sentido de ser diretriz para religiões – que é, tem de ser visto também como um código de conduta moral.

Melhor explicando, a Bíblia, entre outras coisas, define uma ética e uma moral. Parece-me que em relação ao sexo e à sexualidade, a Bíblia possui alguns pilares que sustentam essa moral e que os mesmos servem de parâmetro a essa ética. Quero utilizar dos parâmetros estabelecidos por Norman L. Geisler, em seu livro Ética Cristã, no que tange ao tema proposto. Segundo Geisler, o sexo é intrinsecamente bom, poderoso (capaz de encher a Terra de pessoas, como em Gn. 1:28), mas precisa ser controlado por meio do casamento monogâmico (Gn. 2:24; Mt. 19:6). O sexo tem por função no casamento monogâmico seriam três: 1) “Levar a efeito a unidade íntima sem igual entre duas pessoas”, 2) “fornecer êxtase ou prazer para as pessoas envolvidas neste relacionamento sem igual”, 3) “levar a efeito uma multiplicidade de pessoas no mundo por meio de ter filhos. Respectivamente, as três funções básicas do sexo no casamento são a unificação, a recreação, e a procriação”.[1] Portanto, resume Geisler, sabendo dos propósitos do sexo no casamento, há como compreender as proibições na Bíblia acerca de algumas práticas sobre as “relações extra-conjugais ilícitas” como o adultério, a fornicação, a prostituição e a sodomia (que o autor considera como sinônimo de homossexualidade).

Para Geisler, há um princípio moral na Bíblia que diz que o sexo deve ser um relacionamento pessoal, único e permanente entre um homem e uma mulher.[2] Qual a sua opinião acerca do que foi explanado por Geisler?

Anja Arcanja:

Carlos veja bem, dizer que a bíblia é um livro sagrado – mas como você bem pontuou, no sentido de ser diretriz para as religiões – é também dizer que o alcorão é sagrado, o livro dos mórmons e assim sucessivamente. E penso eu que não existem livros sagrados e tenho como sagrado a vida do ser humano, esta sim, é um livro sagrado que vou escrevendo dia-a-dia, com meu vivar.

Gostaria também de lhe parabenizar por sempre buscar também fontes extras bíblicas (mesmo que tais fontes estejam erroneamente embasadas na bíblia) para embasar suas questões, e lamento não poder oferecer também esta ferramenta, pois os cristãos em geral, são monogâmicos, tentando basearem-se na bíblia como regra de conduta moral para afirmar que um casamento monogâmico é essencialmente necessário para estar em comunhão com deus e experimentarem a felicidade plena em seus relacionamentos, o que não é necessariamente, uma verdade absoluta. Temos alguns exemplos de relacionamentos abertos em que o amor, o respeito mútuo e os valores familiares são as bases e ressalto ainda o amor como pináculo. Mas algumas obras que eu poderia citar seriam:

*Tête-à-Tête - Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre - HAZEL ROWLEY

*Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, com o subtítulo: A Arte da Excepcional Busca pela Felicidade - Walter van Rossum

*Amor a Três - Barbara Foster, Michael Foster e Letha Hadady

O que é ética e moral? Pra mim moral é o conjunto de valores, de normas e de noções do que é certo ou errado, proibido e permitido, dentro de uma determinada sociedade, de uma cultura, ou seja: Valores herdados de costumes.  E ética, normas e regras que devem ser seguidos para que se estabeleça um comportamento moral exemplar.

Mas então, prosseguindo, será mesmo que devemos nos basear na bíblia como base de ética e moral?  Se fizermos uma leitura bem superficial descobriremos que ética e moral não fazem a cabeça de Deus.
Como já disse, moral são valores herdados e não são imutáveis, posso muito bem não pensar como meus avós sobre o que é moral, agindo de maneira diferente deles, sem, portanto, ser uma imoral.

Vamos a sua citação, o ilustre Norman L. Geisler, nascido em 1932, apologista, filósofo e calvinista, não poderia ele estar preso a sua época tal qual estamos a nossa? Ainda tendo por base que ele não era nada tolerante, prova disto foi ter lutado para que fossem expulsos da Sociedade Teológica Evangélica, Clark Pinnock e Greg Boyd, apenas por eles defenderem o teísmo aberto. Eu o refuto dizendo que a bíblia não me serve como base de conduta moral e ética e nela não encontro os padrões que anseio para minha felicidade. Você irá me perguntar: então devo jogar fora a bíblia? Não é óbvio que não! Mas se não soubermos fazer uma leitura histórico-crítica dela, ela de nada nos servirá, a não ser, para nossa própria condenação.

Mas eu sou forçada a concordar com ele sobre as três funções do sexo: 1) “Levar a efeito a unidade íntima sem igual entre duas pessoas”, 2) “fornecer êxtase ou prazer para as pessoas envolvidas neste relacionamento sem igual”, 3) “levar a efeito uma multiplicidade de pessoas no mundo por meio de ter filhos, apenas nesta última, sou rigorosa, sendo eu uma com meu esposo, tenho filhos dele, pois somos uma família, mas no restante, não vejo o porque ou em que uma relação aberta estaria fora dos padrões, pois meu relacionamento aberto preserva exatamente estes 3 princípios.

Carlos, penso estar havendo um engano sobre o significado do vocábulo sodomia ou da parte de Geisler, ou de sua parte, pois sodomia é, segundo todos os dicionários (inclusive bíblicos) a relação anal entre homossexuais e também entre heterossexuais  (entre homem e mulher) e sodomita, no dicionário bíblico, esta sim, faz alusão a homossexual, o que é um erro tanto de interpretação como de tradução.

Réplica

[Carlos Carvalho Cavalheiro]

– Bem, desconheço qual o seu conceito sobre ética e moral. Se for o mesmo dos antigos gregos e romanos, podemos dizer que eram palavras distintas para o mesmo conceito e estava ligado a ideia de um caminho para encontrar a si mesmo. O conceito moderno difere moral de ética, sendo o primeiro, como você explicitou, as regras que são temporais e variam de acordo com os povos, as religiões, os costumes... Há uma moral cristã que diz que a monogamia é o correto. Há uma moral muçulmana que fala sobre a necessidade da poligamia para que não haja mulheres desamparadas. A ética é universal, no conceito atual, e atemporal, questionadora da moral e visa primordialmente o respeito ao outro. Mas o ponto crucial – e me parece mesmo que Geisler entende ética e moral cristãs como sinônimos – é se você considera que os pontos fundamentais propostos por ele em relação à sexualidade cristã são válidos. Ou seja, qual a sua opinião sobre o que Geisler se pronunciou? A palavra sodomia – assim como a sodomita – foi usada por ele como sinônimo de homossexualidade. Gostaria de debater esse assunto mais profundamente em outro tópico. Por isso, peço que aborde tal tema an passant, apenas para dizer sobre um dos pilares que constituem a sexualidade cristã sob a ótica de Geisler, qual seja, o pilar da heterossexualidade.

                Permita-me, no entanto, acrescer mais uma fonte extrabíblica – e mesmo discordante em partes – com a intenção única de ampliar o debate. O esoterismo gnóstico samaelino[3] diz que o adultério – no sentido da união sexual com outro parceiro que não o do matrimônio (marido / esposa) – contamina, pois “Sendo a mulher o elemento passivo, receptivo, é claro que recolhe e armazena os resultados do ato sexual de todos aqueles homens que adulterem com ela. Estes resultados são substâncias atômicas dos homens com os quais efetuou o ato sexual. Quando um homem mantém relações sexuais com uma mulher que tenha sido de outro homem, ou de outros homens, recolhe, então, as essências atômicas dos outros homens e com elas se auto-envenena”[4].  Adianto que Samael não estava falando de, apenas, o sêmen, mas de energias que são trocadas no ato sexual. Parece que nesse sentido se coaduna uma passagem bíblica, em Dt. 24.1 - 4: “Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora. Se, depois de sair da casa, ela se tornar mulher de outro homem, e este não gostar mais dela, lhe dará certidão de divórcio, e a mandará embora. Ou se o segundo marido morrer, o primeiro, que se divorciou dela, não poderá casar-se com ela de novo, visto que ela foi contaminada” [grifo meu]. Usei a tradução da Nova Versão Internacional. Bem, Jesus diz que em verdade o divórcio foi tolerado por conta da dureza de coração dos homens, mas que o casamento é indissolúvel. Na sua opinião, seria essa “contaminação” a mesma ideia da troca de fluxos e energias sexuais, conforme descreveu Samael Aun Weor?  Nesse caso, o relacionamento aberto – inclusão de outros parceiros na relação que não sejam os do matrimônio – não estaria em desacordo com essa ética ou moral?

                Se a função de reprodução no relacionamento aberto não existe durante o relacionamento sexual com outros parceiros, não seria uma relação “incompleta”? Geisler argumenta que a relação homossexual seria errada porque “nenhum nascimento pode resultar dela”. Em suma: não estaria completa nos seus três aspectos. Assim, também com a relação fora do casamento em que não há a intenção da procriação.

                E, pela visão de uma ética universal, usar do próprio corpo para realizar apenas os desejos do seu prazer não implicaria em desrespeitar o outro – ainda que este esteja temporariamente de acordo com isso – pois não seria o mesmo que usá-lo no sentido de que não há ligação mais profunda do que apenas a satisfação sexual? Eis que não formaria “dois em um” com o outro parceiro que não o cônjuge, correto?

Réplica Anja

Sobre moral é ética:

Moral, como disse, pode ser gerada puramente pelo homem, pode se basear em suas paixões, afetos, emoções. O homem pode definir para si uma moral própria, mas ele não pode definir uma Ética própria, a Ética é puramente o que nós somos, o modo de ser, dos seres humanos. Assim, podemos dizer que Ética é a partitura da melodia humana, onde agimos de forma livre, soamos nossos instrumentos com mais ou menos volume, porém seguimos um comportamento em comum.

Sobre a moral religiosa, devemos considerar cada cultura e seus credos, pois aí entrariam os reais de conceitos de ética e moral; para um mórmon, a poligamia é aceita ética e moralmente, assim como para os mulçumanos e de outra forma, para os cristãos é antiético, além de ser imoral. Eu não diria ser imoral a poligamia, mas seria no mínimo, antiético, isto a meu ver.

Muitos poderão pensar que estou sendo contraditória, mas não estou, pois como venho falando desde o começo, trago a proposta do poliamor, do relacionamento aberto, o que é muito diferente de poligamia e poliandria. Poliamor é um tipo de relação em que cada pessoa tem a liberdade de manter mais do que um relacionamento ao mesmo tempo. Não segue a monogamia como modelo de felicidade, o que não implica, porém, a promiscuidade. Não se trata de procurar obsessivamente novas relações pelo fato de ter essa possibilidade em aberto, mas sim de viver naturalmente tendo essa liberdade em mente.

Sobre estar alicerçada nos 3 pilares da heterossexualidade, segundo Geisler discordo do 3° ponto que ele levanta, a procriação e digo que, e uma relação sexual jamais pode estar embasada neste quesito como sendo um dos pilares para uma relação sexual plena e satisfatória. Óbvio que em uma relação estável hétero, o casal queira filhos, da mesma forma num relação estável homoafetiva, mas o fato de na relação homoafetiva não ser possível gerar filhos, não quer dizer de forma alguma que tal relacionamento não possa existir e vou ainda mais longe, ter filhos adotivos ou até mesmo biológicos. Eu não vejo de modo algum uma relação sem a “função procriar” ligada como uma relação incompleta, pois se assim fosse, estaríamos 99% das vezes em que fazemos sexo com nosso cônjuge, numa relação “incompleta”, e, portanto pecaminosa; a menos que não usássemos nenhum método contraceptivo.

De novo vejo apresentada a palavra adultério, uma vez que deixei claro ser contra o adultério e não é esta a proposta do relacionamento aberto e sim exatamente o contrário. Mas considerando a citação de Samael Aun Weor, que não apenas parece, mas sim está intrinsecamente ligada a passagem em Deuteronômio que você cita (pelo menos penso e quero crer que sim), mas veja o que existe em comum em tais citações? Ambas estão presas a uma visão machista da época em que viviam, mesmo separados por milênios. Sobre a fala de Jesus, afirmo que, Jesus referia-se a mulher ter algum direito, já que acontecia dos homens divorciarem de suas esposas por qualquer motivo e estas ficavam a mercê da própria sorte, bem como explicitei no tema anterior – adultério – e não podemos ligar a fala de Jesus aos casamentos de hoje, pois vivemos noutra época, com outra realidade cultural.

Sobre sua última pergunta – muito pertinente por sinal – a verdade Carlos, é que somente acontece o fato que você cita – o desrespeito ao outro – nas  relações monogâmicas, não se espante, esta é a verdade nua e crua, pois no  relacionamento aberto normalmente as pessoas envolvidas estão envolvidas mais intimamente e não estão apenas em busca de prazer sexual e existe uma ligação sim, mas claro que pode acontecer uma flerte aqui ou acolá, o que não terminaria obrigatoriamente num motel.

Onde há respeito, aí há liberdade.

Tréplica

[Carlos Carvalho Cavalheiro]

– Acho que essa é a tônica deste tema, afinal, ética tem a ver com respeito. Por esse motivo, gostaria de terminar este bloco de perguntas colocando situações em que supostamente esse respeito ao outro, ou seja, a ética, seria quebrada. Quero saber a sua opinião sobre tais situações. Seguindo a lógica exposta em seus argumentos, há parâmetros para uma ética cristã relacionada à sexualidade e ao sexo. Tanto assim que você se posiciona contra o adultério, por exemplo, por representar uma infidelidade ou traição, desrespeitando assim ao outro. No entanto, não ficou claro quais seriam os parâmetros do que você consideraria como ética nessa questão do sexo e da sexualidade. Por exemplo, as parafilias. Seriam éticas? Por quê? Como poderia dizer que a zoofilia, por exemplo, não feriria a ética e a pedofilia sim? A zoofilia não implicaria em forçar um animal a praticar sexo com um ser humano? Isso seria ético? A zoofilia consta como proibida em Lv 18.23; assim como a menofilia (v. 19), o incesto (vs. 6 – 18), e a homossexualidade masculina (v. 22). Claro que não quero que responda caso a caso, mas sim que de forma genérica diga: qualquer uma dessas práticas seria ética? Como separar o que é e o que não é ético?

Por outro lado, quando você diz que somente numa relação monogâmica acontece o desrespeito ao outro, não estaria generalizando? Acredita mesmo que todo casal monogâmico acaba por buscar prazer em relações extraconjugais? Será que todos nós temos impulsos sexuais que não poderiam ser controlados? Se assim for, o que podemos dizer dos que praticam a pedofilia? Como julgar tal comportamento se isso é um “impulso incontrolável”?

Por fim, quero propor a seguinte situação: Numa relação onde predomina o poliamor e a relação aberta, as outras pessoas envolvidas (como familiares em geral e, especialmente, filhos), levando em consideração o preconceito da sociedade em relação a essa prática, não devem ser levadas em consideração? Reformulo melhor a pergunta: se tal prática atinge outras pessoas que nos são caras, como os familiares, não seria antiético continuar a praticar eis que estaria desrespeitando outras pessoas emocionalmente envolvidas? Ou mesmo numa relação aberta em que um dos cônjuges acaba por sentir ciúme por determinado parceiro/a do outro cônjuge... O sofrimento do cônjuge com o ciúme não seria o motivo para não praticar o poliamor? Lembro-me da música de Raul Seixas, “A maçã”, no qual ele defende o poliamor ao mesmo tempo em que diz: “sofro, mas eu vou te libertar”, pois “o ciúme é só vaidade”. Ora, se há sofrimento da outra parte, isso não caracterizaria uma atitude antiética? O apóstolo Paulo, por exemplo, discursa sobre o fato de ele desistir de realizar coisas – mesmo que não sejam pecados – por amor ao próximo para que não sirva de pedra de tropeço (I Co. 8. 9 – 13). Não seria o fato de evitarmos dar vazão aos nossos impulsos, mesmo que seja pelo amor ao nosso próximo? Não seria essa a atitude ética?   

Tréplica anja


Carlos, sobre parafilias, podem ser vista como transtorno, uma disfunção sexual, e deve ser diagnosticada e tratada, embora as mais diversas fantasias podem também ser entendidas como parafilia, mas fantasias, comportamentos ou objetos são parafílicos apenas quando levam a sofrimento ou prejuízo clinicamente significativos à própria pessoa ou a outrem, como por exemplo pedofilia, masoquismo, sadismo (entre outras). Então, penso eu, não cabe dizer apenas se é ético, mas se trata de caso de tratamento médico. Aí você poderia me perguntar: mas pode existir pedofilia sem ser considerada uma patologia, e até crime? NÃO! Pois traz prejuízos a outrem, compreende? No caso de zoofilias, confesso que não sei muito a respeito, mas ao que parece (pelo pouco que já vi), o animal responde ao olfato, única explicação que encontro, é o uso de feromônios, mas não vejo como antiético, apesar de me causar repulsa, mas, sabemos também que animais são criados em péssimas condições, maltratados e cruelmente mortos para estar nos menus dos mais caros e bem frequentados restaurantes e isto não nos incomoda nem um pouco.

Sobre suas colocações sobre zoofilia, menofilia e a homossexualidade (e a bíblia não condena a homossexualidade como você diz, mas falemos sobre isto em hora mais oportuna) sobre as proibições no “livro da Lei”, estas leis eram apenas um código de santidade dado por deus exclusivamente para o povo hebreu, e será mesmo que hoje devemos ser regidos por tal lei? Tenho certeza que não, pois como já disse, foi escrito exclusivamente para o povo hebreu, e não para os gentios (estrangeiros). E nem todas estas práticas seriam éticas, como por incesto, que, vale ressaltar, sequer é considerado crime no Brasil, se os envolvidos forem maiores de idade, apenas há o impedimento nas justas núpcias.

Como separar o que é ético e o que não é? Ética é puramente o que nós somos. É o desejo de viver a vida, mas em harmonia e transparência com outras pessoas.

Sua pergunta sobre eu ter generalizado ao falar que somente em relações monogâmicas acontece o desrespeito ao outro, não quis de forma alguma generalizar e apenas fiz uso de hipérbole, pois de fato, existem relações monogâmicas onde o respeito impera, e onde há respeito, aí há liberdade, e todo impulso incontrolável, é uma disfunção, devendo ser diagnosticada e tratada, seja pedofilia ou qualquer outra parafilia.

Carlos, seu último parágrafo, foi muito importante e irei reponde-lo por tópicos:

Primeiro gostaria de falar sobre familiares. Veja bem, o que tem os familiares a ver com as escolhas que fazemos? (quando se trata de escolha, como no caso do poliamor, homossexualidade não entra aqui como sendo escolha). Pareço ter sido dura ou radical? Mas não! Vejamos: “deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gênesis 2:23-24). Óbvio que não estou dizendo que devemos “abandonar”, mas, como seres únicos que somos, não podemos abdicar de nossas escolhas em prol de familiares, mesmo que nossas escolhas não sejam do agrado, ou da vontade deles, pois cada um tem sua vida e é responsável pelas escolhas que faz.

E os filhos? Ora, filhos são o reflexo dos pais. Somos espelhos e eles apenas refletem o que veem em nós, ou seja, se vivo um relacionamento aberto, logo, a educação que dou a meus filhos, é baseada na vida que levo; não quero dizer com isto que, eles obrigatoriamente serão adeptos ao poliamor quando estiveram namorando e casarem-se, pois como disse acima, somos seres únicos no universo e temos de fazer nossas escolhas, ninguém poderá fazê-las por nós. Ainda levando em consideração o preconceito da sociedade e o possível constrangimento e até mesmo um abalo emocional, digo mais uma vez que o poliamor não é sinônimo de promiscuidade e uma vida devassa e libertina, ao contrário, tão somente é a liberdade de poder fazer e, escolher fazer ou não. Ao contrário de NÃO poder, e fazer, o que, se descoberto, causa muito mais constrangimento aos filhos, principalmente se tratando da mulher quando pega em adultério numa cultura machista como a nossa.

Em último lugar, em se tratando do cônjuge, como venho dizendo sempre, o respeito é o pilar de todo relacionamento aberto e, se o cônjuge sente-se inseguro, deve-se pensar se é mesmo, aliás, é imprescindível que, se desista de vez ou espere o amadurecimento do cônjuge (na verdade de ambos) para abrirem (ou não) a relação. Também não serei hipócrita de dizer que não existam relacionamentos “forçadamente” abertos, aonde um dos cônjuges, chega a propor separação em caso de recusa em se abrir o relacionamento e, por incrível que pareça, os homens são quem mais “forçam a barra”, insistindo na abertura da relação, mas não para eles terem relações com outras mulheres, e sim, suas esposas terem relações com outros homens enquanto eles “assistem” (ativa ou passivamente); se tal situação perdurar por muito tempo, estará fadada ao fracasso.

Para concluir, quero falar um pouco sobre o exemplo poético-musical que você trouxe. Lembre-se que todo poeta tem permissão divina para mentir, e se por ventura o Raul relatou um fato pessoal, enquadra-se no que citei acima e ele poderia  muito bem estar apenas “entusiasmado” lendo a biografia de Sartre e Simone. (rsrs)

Gostei muito das questões que você apresentou e espero tê-las respondido a contento.

Bjux,

Anja Arcanja




[1] GEISLER, Norman L. Ética Cristã. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997, p. 172.
[2] Idem, p. 175.
[3] Fundado no século XX por Samael Aun Weor, baseado em tradições antigas do gnosticismo e que tem na magia sexual um dos pontos de apoio para a auto-realização íntima do Ser.
[4] WEOR, Samael Aun. Matrimônio Perfeito. São Paulo: Movimento Gnóstico Cristão Universal do Brasil na Nova Ordem, 1992, p. 99.

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Carlos Carvalho Cavalheiro - Nasceu em São Paulo em 09 de maio de 1972. Formado em História, Teologia e Pedagogia. Pós-graduado em Gestão Ambiental e em Metodologia do Ensino de História. Professor de História na rede pública municipal de Porto Feliz. Escritor e poeta, escreveu os livros: "A greve de 1917 e as eleições municipais de 1947 em Sorocaba"; "Folclore em Sorocaba", "Salvadora!", "Decobrindo o Folclore", "Scenas da Escravidão", "Histórias que não se contam mais - vol 1", "A História do Preto Pio e a fuga de escravos de Capivari, Porto Feliz e Sorocaba", "Histórias que não se contam mais - vol. 2", "O Peregrino do Caminho do Sol", "Moda da História de Sorocaba", "Vadios e Imorais", "O Mistério Revelado", "Memória Operária", "Folia de Reis em Sorocaba".
Foi co-diretor, juntamente com Adilene Cavalheiro, do documentário "Cantos da Terra".
Produziu os cds "Cantadores - o folclore de Sorocaba de Sorocaba e região" e "Passarela da Saudade" (Diolindo e Almeida).


Escritora e poetisa amadora e teóloga. Autora do blog “O mundo Da Anja” (http://omundodaanja.blogspot.com.br/), um blog que conta com diversas parcerias e articulistas, voltado a discutir religião, filosofia, teologia, ateísmo, homossexualidade, sexualidade humana, entre outros temas de relevância; e do blog “Poemas e contos eróticos da Anja” (http://anjaarcanja.wordpress.com/), um blog de cunho erótico. Escreve ainda para os blogs “confraria teológica Logos & Mythos”, "Vida Sofista" e   “Fragmentos Ativos”, além de ter textos publicados em vários blogs e sites.


Um comentário:

Rita Candeu disse...

diz o Carlos:
"Segundo Geisler, o sexo é intrinsecamente bom, poderoso (capaz de encher a Terra de pessoas, como em Gn. 1:28), mas precisa ser controlado por meio do casamento monogâmico (Gn. 2:24; Mt. 19:6)."

então os grandes patriarcas - todos eles com várias esposas - e demais personagens do AT era tudo descontrolado?

eu acho uma graça ignorarem esse grande detalhe

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