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terça-feira, 30 de outubro de 2012

FACES DA RELIGIÃO - I



By Matheus de Cesaro

"Ora, desde o momento em que a doutrina cristã se edifica sobre fatos e não sobre simples conceitos da razão, não se denomina mais somente religião cristã, mas fé cristã... Na igreja cristã, nenhum desses dois cultos (histórico e racional) pode ser separado do outro, como subsistente em separado. O segundo não pode ser separado do primeiro, porque a fé cristã é uma fé religiosa, nem o primeiro do segundo, porque é uma fé racional e erudita."

A Religião nos Limites da Simples Razão - Immanuel Kant 1793


Lendo Kant, racionalmente me peguei a pensar no lado bom da religião, a refletir, meditar e colocar na letra algo que pudesse determinar em tese, o que seria bom e o que seria ruim se tratando de religião como sistema. Há alguns dias, li um texto na Confraria, que falava sobre a idéia de um mundo sem religião, um texto que me levou a conjecturar e analisar o mundo partindo desta premissa, que é a “inexistência da religião”.


Quero nesta reflexão trazer ao leitor um pouco do que em 15 anos estudando e explorando a religião tenho percebido. Seria um tanto, quanto ingênuo, se classificasse a religião como má em um todo, dentro de um contexto absoluto e generalizado, por isso vou dividir essa reflexão em duas partes, traçando um paralelo entre seus pontos positivos e seus pontos negativos, não na necessidade de convencer “a” ou “b” a aceitar e viver a religião ou não, mas sim na intenção de compreender um pouco mais do seu significado e poder de atuação.


Hoje é muito comum ver, ouvir, ler e presenciar situações onde a religião é atacada por alguns, e defendida por outros até com a vida. É muito comum presenciar discussões e debates acirrados em torno deste fenômeno cultural denominado religião. É até interessante perceber que aquilo que em tese tem o sentido de religar, afasta e divide as pessoas com tamanha força e intensidade


A religião e seus dogmas milenares, tem hoje diversos inimigos. Homens que estudaram e estudam para refutar os ideais de cada sistema e cultura em que ela esteja inserida, homens que realmente são inteligentes, mas que talvez em suas próprias arrogâncias, muitas vezes tem feito papel de tolo, como é o caso de Richard Dawkins, que embora exagere e saia do discurso racional para atacar com ironias e ofensas, é o principal articulador ateísta em atividade e com o apoio da mídia. Mas é importante explicar que, ateísmo é completamente diferente de ser alguém contrario a idéia da religião. Hoje, o que percebo é uma grande confusão no meio filosófico e cultural no que diz respeito a esse assunto. Não podemos caracterizar o anti-religião, como ateísta, sem que esse tenha em mente uma tese, um conceito, uma idéia que defenda a inexistência de um Ser Inteligente e Criador, como disse Anselmo “a causa inicial de todas as coisas”. Mas não quero polemizar, nem entrar nesta questão do ateísmo, e sim explanar sobre a questão “religião/sitema”.


Certa vez, ouvi uma frase que desconheço a autoria, ela diz, “A religião é a maior arma na guerra contra a realidade”, e quero começar a explanar sobre o assunto com os leitores, a partir deste princípio que aqui vou denominar como “fuga”. A religião, como sistema atua como principal mecanismo de fuga daquilo que realmente é a nossa realidade, pois nós como seres humanos, quando estamos entregues a religião, transferimos todas as nossas responsabilidades para ela, independente do credo, seja cristão, muçulmano, kardecista, hinduista ou qualquer outro, nós passamos a apoiar todas as nossas ações naquela que denominamos a nossa religião, criamos um sub mundo supostamente “espiritual”, e passamos a lutar e fugir com muito empenho do que seja de fato a nossa vida, o que na verdade é mais cômodo, é muito mais tranqüilo, é mais prático e confortável se adequar a um determinado conto cultural do que enfrentar a realidade de frente. Heinrich Heine, ao escrever seu ensaio sobre Ludwig Börne, ele afirma, “Bendita seja uma religião, que derrama no amargo cálice da humanidade sofredora algumas doces e soporíferas gotas de ópio espiritual, algumas gotas de amor, fé e esperança.” Nesta linha de raciocínio, partindo desta idéia mencionada por Heine, realmente a religião pode amenizar por um determinado tempo muitas das situações que a vida nos propõe enfrentar, mas nunca nos tornará isentos de enfrentar os percalços e intempéries da vida. A idéia religiosa que promete hoje uma vida de sucesso e felicidade, é facilmente desmentida pelo Mestre Jesus, quando afirma aos seus seguidores que estes, “teriam muitas aflições”, João 16.33.

O segundo princípio que quero relatar é o que aqui vou chamar de “bengala política”, ou se preferir para não radicalizar, “interesse próprio”. Sem medo, diria que a religião sempre foi, é, e provavelmente nunca deixará de ser a mais forte aliada dos sistemas políticos. Napoleão Bonaparte, imperador francês e um dos maiores estrategistas que já se viu e ouviu falar diz, “Religião é uma coisa excelente para manter as pessoas comuns quietas”, ou seja, trocando por miúdos, ela faz um excelente trabalho de manipulação e conformismo na mente do ser humano que nenhum outro sistema fará com tamanha perfeição e excelência. Podemos perceber isso analisando um pouco da história da humanidade e das civilizações, iremos perceber que na esfera política é muito comum ver Estado e Igreja de mãos dadas pelo bem da comunidade. Enquanto o Estado explora, a Igreja atua na intenção de manter a comunidade calada e satisfeita em nome de Deus. Eu sei que minha argumentação agora, pareceu um pouco radical, mas se estou a explanar sobre fatores que norteiam a “religião/sistema”, não poderia deixar de mencionar este aspecto.

Mas seguindo esta linha de raciocínio e a ordem dos fatores já mencionados, como fuga, bengala política ou interesse, temos também a questão da comodidade, da inércia, do estar satisfeito com o mito, e não se desprender do habitual, não desejar sair da “caixa de fósforos” da religião. Não ousar pensar e buscar referências mais concretas que lhes proporcionem maior conhecimento sobre os assuntos relacionados com a vida, o mundo, a fé e até mesmo a eternidade. Vou me dar o capricho e fazer uso de uma frase do tolo Richard Dawkins, “Eu sou contra a religião porque ela nos ensina a nos satisfazermos ao não entender o mundo”. A religião insiste nesta idéia de que a submissão e obediência a ela e seus dogmas são princípios básicos para se viver plenamente feliz, em paz e próximos de Deus. Idéia esta,  que de forma alguma posso concordar, pois o que sinto e percebo na crença religiosa, é uma espécie de prisão, algo que nos impede de irmos além, algo que nos mantém imobilizados por regras e penitências pelo não cumprimento das mesmas, viver, crer e esperar na religião uma plena felicidade é um equivoco, é como diz um declaração de Dalai Lama que gosto muito, “Crença religiosa não é uma condição prévia para conduta ética ou para a felicidade”, isto é coerente com o que temos e encontramos no dolorido e confortável chão da vida, nem felicidade e nem conduta ética podem, devem ou estão estabelecidas e garantidas na religião.

Porém, o que mais me assusta, quando estou a refletir sobre os pontos negativos que se revelam na religião, esta relacionado com o fato de milhares de pessoas abandonarem suas vidas para viverem exatamente de acordo com o que as religiões impõe, isso é o que chamamos de “alienação”, algo que é produzido pelos sistemas religiosos de forma sutil e muito bem disfarçada em nome de Deus. Quando falamos em religião não podemos deixar de mencionar, lembrar ou atentar ao fato de muitas pessoas matarem, tirar a própria vida, absterem-se de seus familiares, defender guerras onde milhares de inocentes pagam com a vida pela fúria de um Deus zangado e principalmente, convictos de que estão fazendo o certo, o bem, a vontade do Ser Superior. Os camaradas só podem estar com a mente cauterizada, impossibilitados de evoluir, proibidos de fazer uso da consciência para discernir, literalmente alienados, conduzidos ao mal pela religião em nome do bem. Realmente penso que, um mundo sem “religião/sistema” poderia sim ser melhor, talvez menos ignorante e mais aberto a buscar a evolução humana no âmbito da espiritualidade. Termino esta primeira etapa da reflexão sobre religião com uma frase dita por um comediante famoso, George Carlin,“A religião é apenas controle mental”, o que explica os porquês deste sistema proporcionar e produzir fuga, silêncio, comodismo e alienação. Fiquem atentos amigos, pois logo publicarei a parte 2 desta reflexão, e desculpem-me se não atendi as vossas necessidades, até mesmo porque esse não é o meu objetivo. Abraço e obrigado pelo apoio, sem vocês leitores, toda escrita perde o sentido.

"A verdadeira religião nos prescreve que amemos até nossos inimigos." 

Santo Agostinho


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

No Princípio




By Ivani Medina

No princípio era o verbo. Depois vieram as frases feitas e muita conversa fiada. Minha curiosidade pela origem da nossa cultura tem sido uma viagem por caminhos que eu nunca havia sonhado. O respeito que desenvolvemos pelos nossos mestres e figuras sábias das nossas sociedades acabou nos deixando perdidos de nós mesmo para que nos amoldássemos às expectativas alheias. Fazer o caminho de volta implica, sobretudo, em conhecê-lo, identificá-lo sem vacilação e indicá-lo aos demais. Também este é o papel da história, pois foi falsamente alegando apoio nela que nos turvaram os sentidos, e a maioria das pessoas se encontra impossibilitada dessa percepção. Por conta disso, fiquei admirado com uma declaração da conhecida historiadora cristã Elaine Pagels a respeito da repercussão dos seus estudos dos primórdios do cristianismo em si própria:

“Os eventos esboçados aqui afetam, obviamente, o modo como entendemos a nossa história cultural. Mas para os que se encontram envolvidos com essa história, como eu, desenredar algumas de suas complexidades tem consequências práticas, além de intelectuais. No meu caso, o mais difícil e estimulante na pesquisa sobre as origens do cristianismo foi desaprender o que eu achava que sabia e abandonar pressupostos que eu aceitava sem questionar.” (PAGELS, 2004, p.187)

Ah, como afetam! Especialmente àquelas pessoas que desenvolveram uma relação sentimental estreita com a fé cristã por uma vida inteira, como é caso dela. Eis a grande dificuldade dos (as) historiadores (as) cristãos nesse duelo entre a honestidade intelectual e a íntima realidade sentimental. O cristianismo que conhecemos escolheu para si o papel de vítima, o “coitadinho da história”, na verdade da estória que ele mesmo conta, enquanto a história nos revelava outro. Os cristãos se acostumaram à versão doméstica, mas quem procura acha.

Mais adiante, fechando o assunto, com a força de um profundo suspiro de uma crente ainda convicta, diz ela:

“Qualquer pessoa que tenha visto tolice, sentimentalismo, fraude ou fúria homicida disfarçadas como verdade divina sabe que não existe uma resposta fácil a esse problema. Que os antigos chamavam de discernimento de espírito. A ortodoxia tende a desconfiar da nossa capacidade de estabelecer essas distinções e insiste em fazê-las por nós. Em vista da notória capacidade que tem o ser humano de iludir a si próprio, em certa medida podemos agradecer a Igreja por isso. Muitos de nós, querendo ser poupados de trabalho árduo, aceitam de bom grado o que a tradição ensina.” (PAGELS, 2004, p. 190)


Discordo inteiramente da ilustre historiadora neste parágrafo, especialmente quanto a “notória capacidade que tem o ser humano de iludir a si próprio” a começar por afirmar que existe uma resposta fácil, sim. De tão fácil é inaceitável para os que se afeiçoaram aos albores da imaginação dos gregos antigos, dos anatolianos em especial.

“Conheça o que está diante de sua face, e o que está oculto para você ser-lhe-á revelado. Pois nada há oculto que não seja revelado.” (Sentença V, evangelho de Tomé).

Há muito venho demonstrando que para se conhecer a origem do cristianismo basta seguir as pegadas do antijudaísmo, coisa que ninguém ainda fez. Chegam a pensar que sou judeu por causa disso, mas não sou. Nem simpatizante da tradição judaica, como outros. Livre da ambivalência desse preconceito eu me sinto absolutamente à vontade nessa afirmação. Então, vamos a mais uma demonstração:

Outro aspecto importantíssimo no estudo dessa campanha difamatória contra os judeus no século I e.c., se prende especialmente às formas de expressão religiosa que se estenderam aos séculos II e III e.c. Na Antiguidade política e religião não se separavam. O deus de Israel foi execrado como um maligno que trouxe almas ao mundo desditoso da matéria. Devia ser repudiado como o povo que o seguia. “[...] Muitas seitas pagãs desse período eram, também, violentamente antijudaicas, e as de tendências dualistas identificaram ‘o execrável deus dos judeus’ com o poder maligno de Saturno e com o Diabo.” (GRANT, 1977, p. 63).

GRANT se refere a seitas pagãs porque, certamente, o cristianismo ainda não havia se manifestado nesse dualismo antijudaico. A resultante religiosa desse confronto cultural helenístico - pois envolvia não só elementos gregos - foi o gnosticismo antijudaico, surgido imprecisamente nos primeiros séculos da era comum. Documentos antigos encontrados no Alto Egito, em Nag Hammadi, favoreceram o entendimento da ponta mais primitiva do cristianismo que passou a ser considerada herética, por não se prestar a uma religião de massa politicamente manobrável.

Não interessa aqui discorrer sobre os variados tipos de gnosticismos, que eram muitos, senão nota-lo basicamente quanto ao surgimento e consequências, porque a religião faz parte, mas não é o nosso assunto preferencial e sim o seu surgimento em via da necessidade política. Para os gnósticos o deus de Israel era o demiurgo (nome empregado por Platão para o criador). Este havia se colocado no lugar do verdadeiro Deus e dominava o mundo como rei e senhor, que agia como um comandante militar, que estabelece a lei e julga aqueles que a violam.

O objetivo filosófico dos gnósticos era o autoconhecimento, pois, segundo eles, quem se conhece, conhece a própria fonte e descobre a sua origem espiritual, pois ficou conhecendo seu pai e mãe verdadeira. “Quem busca a verdade é também quem a revela”. Aprende a rejeitar a autoridade enganosa do criador e a considerar todas as suas exigências tolices. Antes da gnose o candidato adorava o demiurgo, difundindo o seu poder. Depois, por intermédio dela e do sacramento da redenção, declara-se liberto e que não pertence mais a esfera de autoridade e juízo do falso Deus.

Ao que parece, a balança helenística estava mesmo tendendo para o judaísmo, o que justificaria uma ação tão ousada do mundo pagão, como registrou GRANT. Desprestígio maior a religião judaica não poderia encontrar, senão ver o próprio deus atingido em cheio. Alguns historiadores têm o hábito de dizer que a minha alegação não faz sentido, pois os judeus não tinham importância na época, uma vez que pouco se registrou deles. Fosse assim, como se explicariam as notícias incomodas e pouco divulgadas que merecem maior atenção?
“A hostilidade entre gregos e judeus no Egito foi intensa ─ de longe a mais séria tensão inter-racial do Império. Surgido pelo menos nos primeiros anos do século terceiro a. C., o anti-semitismo pagão brotou do exclusivismo judaico e do consequente ressentimento das cidades gregas contra um povo que recusava tomar parte nos seus interesses sociais e divertimentos. (GRANT, 1977, p. 61)
Além disso, como nos tempos atuais, o anti-semitismo era estabelecido não só pelo boato vulgar mas também pela propaganda deliberada de intelectuais. Por certo, no primeiro século d.C. o sentimento antijudaico, que crescia constantemente, era, em grande escala, a obra dos escritores, sendo a maioria deles os gregos”. (JOHNSON, 1989, p. 138)

“A maioria desses intelectuais [hostis ao judaísmo] procedia de cidades gregas da Ásia Menor, da Síria e do Egito gregos: Clearco de Soli (filósofo da escola de Aristóteles), Diodoro Sículo (historiador), Queremon (historiador), Lisímaco, Apolônio Mòlon (retor), Apion (professor de literatura e escritor) entre outros tantos” (MESSADIÉ, 2003, p. 42, 446, 47, 50).
O que não tem base histórica nem científica é o acatamento do Novo Testamento como fonte a endossar o que só ele diz.
A experiência anatoliana mostrou-se mais uma vez inigualável e não pararia por aí. Foi de lá, da Anatólia ou Ásia Menor, como os romanos chamavam, berço da filosofia, que possivelmente veio o gnosticismo para espalhar-se no mundo antigo. A inteligência grega circulava o tempo todo pelas mais prestigiadas regiões naquele caldeirão helenístico: Ásia Menor, Síria, Egito nas quais o gnosticismo se desenvolveu na sua forma pagã antes de cristianizar-se.
A propósito, é bom diferenciar a gnose judaica deste gnosticismo antijudaico pagão: gnose, como já vimos, significa conhecimento. Gnosticismo genérico era um movimento religioso sincrético que prestigiava a gnose, autoconhecimento, e execrava o deus de Israel numa atitude nitidamente política. Não haveria de ser um contrassenso que judeus buscassem a gnose, o que não significa necessariamente envolvimento com um movimento sincrético que execrava o seu próprio deus. Nenhuma das fontes do pensamento judaico dos primeiros séculos como os essênios e Filon, se opôs de forma tão radical a tradição. Pelo contrário, não abandonaram o Pentateuco.
Como se não bastasse, havia concepções ditas gnósticas absolutamente insultuosas aos costumes dos judeus. “A doutrina de Basilido (Basílides) e de Carpocras (Carpócrates), chefes dos gnósticos, começava a fazer progressos, apesar da sua extravagância. Aqueles hereges sustentavam que era permitido o uso de todos os prazeres; que as mulheres deviam ser comuns; que não havia ressurreição da carne; e que o Cristo era unicamente um fantasma.” (LACHATRE, 2004, p. 55). Os nicolaítas estimulavam a sodomia.

O criador da gnose foi o príncipe indiano Sidarta Gautama (563-483 a.e.c.), o Buda (iluminado) teria descoberto por si mesmo um método capaz de conduzir o indivíduo ás profundezas da própria existência. Método que ficou conhecido como Budismo Hinayana (pequeno veículo, pois comporta apenas um). A ideia é romper o ciclo do renascimento mediante muito esforço, no sentido de se alcançar um nível de consciência íntima cada vez mais aprofundado, mais claro à razão, mais luminoso por fim. Budismo significa iluminação. Durante esse processo de iluminação é que se vai conhecendo o Eu superior, segundo seus seguidores, o único e verdadeiro mestre.

O Budismo só se tornaria religião muito tempo depois da morte de Sidarta Gautama, quando enlaçado pelos costumes de outras terras. Surge então o Budismo Mahayana (grande veículo) de caráter missionário com estátuas do Buda gordo, crenças, deuses, deusas, doutrinas, incensos etc. Entretanto, a ideia da existência do Mestre Interior ou Superior, permaneceu inalterada e imprestável à utilização política. Foi por causa disso que a porca torceu o rabo.

“A desagregação do Império selêucida e a do Império mauria permitiram a Bactriana assenhorar-se do vale do Indo, estendendo-se assim do mar de Aral até o mar das Índias. Mas desse império grego, criado em plena Ásia central, perdeu rapidamente a unidade. Indeciso entre a atração do mar, ao sul, e a do continente, ao norte, fragmentou-se a partir de 175. Os gregos que o governaram e o administraram, e repartiram entre si os seus pedaços, foram logo conquistados pela cultura hindu. Pelo mar, entretanto, manteve-se o contacto entre o reino grego das Índias e o helenismo, dando origem a uma civilização greco-búdica, que ainda resplandeceu na Ásia pela estrada das caravanas da Bactriana. Mas essa influencia marítima grega não tardaria a esbarrar na política de imperialismo econômico continental da China.” (PIRENNE, 1973, p. 100 e 101).

No século III a.e.c., como parte do intercâmbio entre gregos e hindus, um rei hindu convertido ao budismo e chamado Açoca, enviou missionários budistas ás monarquias helenísticas. Desde aquela época Alexandria recebia visita daqueles monges que despertavam grande curiosidade. Conta-se que elementos da colônia judaica local também se encantaram com eles e teria sido essa a origem dos essênios ou terapeutas do deserto, a partir de 150 a.e.c. Therapeuta seria a forma grega de Thara Puta, filho do ancião, em Pali; língua falada pelos monges budistas visitantes.

Porém a nossa historiadora faz uma estimativa mais recente desse contato budista em Alexandria. “As rotas comerciais entre o mundo greco-romano e o Oriente estavam sendo abertas na época em que o gnosticismo floresceu (entre os anos 80 e 200); missionários budistas vinham pregando em Alexandria há gerações”. (PAGELS, 1995, p. 19)
Qual um mestre budista, esse anônimo professor [gnóstico] de Rheginos prossegue explicando que a existência humana comum é a morte espiritual, mas que a ressurreição é o momento de iluminação: “è a revelação do que verdadeiramente existe, e uma migração (metábole – mudança, transição) em algo novo”. Aquele que compreender torna-se espiritualmente vivo.” (PAGELS,, 1995, p. 43). Quem alcança a gnose torna-se “não mais um cristão, mas um Cristo”. (PAGELS, 1995, p. 155)

“De acordo com o mestre gnóstico Teódoto, que escreveu na Ásia Menor entre os anos 140 e 160, o gnóstico é aquele que chegou a compreender quem éramos e quem nos tornamos; onde estávamos [...] para onde nos precipitamos; do que estamos sendo libertos; o que é nascimento, e o que é o renascimento. Porém, conhecer-se no nível mais profundo é simultaneamente conhecer Deus; esse é o segredo da gnose. Outro mestre gnóstico, Monoimus, diz: Abandone a procura de Deus, a criação e outras questões similares. Busque-o tomando a si mesmo como o ponto de partida. Aprenda quem dentro de você assume tudo para si e diz,“Meu Deus, minha mente, meu pensamento, minha alma, meu corpo”. Descubra as origens da tristeza, da alegria, do amor, do ódio [...] Se investigar cuidadosamente essas questões, você o encontrará em si mesmo”.  (PAGELS, 1995, p. 17)

Todavia, fontes ainda mais cristãs dão outra interpretação a essa origem, que é clara quanto o caráter anijudaico procedente da Ásia Menor.

“O gnosticismo nasce após 70 nos meios judeu-cristãos messianistas da Palestina e da Ásia, com Cerinto, e de Antioquia com Menandro. A corrente asiática apresenta um caráter mais prático. Sublinha o aspecto da revolta contra a Lei. Apresenta-se como exasperação de certas tendências paulinas. Reveste certas formas amoralistas. A corrente antioquiana é mais especulativa. É ele que suscita com o Apocryphon de João, a primeira grande obra gnóstica que conhecemos. As duas correntes desenvolvem-se em Alexandria no fim do período que ora estudamos. Mas enquanto o primeiro não deve demorar a extinguirem-se com as últimas chamas do messianismo judeu, o segundo há de encontrar no ambiente alexandrino as condições para um desenvolvimento extraordinário.” (DANIÉLOU; MARROU,1966, p. 88).

“Quanto ao povo, deixava-se seduzir pelas idéias místicas representadas, desde o início do primeiro século, pela seita dos essênios, que, separados deste mundo, renunciavam à prosperidade privada em proveito do grupo se que faziam parte recomendavam a sobriedade, a castidade, a pureza dos costumes e a brandura; consideravam o celibato como um estado superior ao casamento e professavam, no plano social, que todos os homens eram iguais. No plano religioso, os essênios acreditavam na vida futura e faziam da salvação da alma a finalidade da existência. Enfim, anunciavam a próxima vinda do Messias, cuja noção se espalhara por todo o Oriente. Adeptos fervorosos da ideia messiânica, os essênios não a viram, como os fariseus, no plano nacional, porém no plano universal. O povo o esperava sob o aspecto de um homem de Deus, que pregasse e praticasse o Bem.” (PIRENNE, 1973, p. 126).



Depois das suas pesquisas dos manuscritos do Mar Morto, Quammrã, o professor James VanderKam, concluiu que em virtude dos manuscritos, ficou mais fácil enxergar que um grande número de crenças e costumes cristãos não eram exclusivos dele. Definitivamente, a crença cristã repousa mais no mito de Jesus Cristo do que nos costumes comunitários e em expectativas escatológicas alegadamente suas. (VANDERKAM, 1995, p. 219).

Quando se fala em gnosticismo judaico tenta-se reconstruir uma ponte que nunca existiu no passado entre o judaísmo e o cristianismo do NT, porque existia o de Serápis, mais antigo. A propaganda de Filon e Josefo dos essênios parece ter sido muito oportuna aos inimigos do judaísmo. O cristianismo não surgiu diretamente do judaísmo, como já havia comentado o teólogo, filósofo e historiador Bruno Bauer, no século XIX. A necessidade de o cristianismo ortodoxo aparentar-se histórico e judaico responde a uma estratégia política muito consequente. A questão é que o pudor religioso não quer que o ardil político saia na foto ao lado dele.

A ala ortodoxa cristã se organizava em escalões subordinados a bispos, padres, diáconos e leigos. O bispo ia despontando como um monarca (único governante) com poder disciplinador e juiz de leigos. Os gnósticos cristãos se opunham a hierarquia eclesiástica. Entre eles todos se reversavam nas diversas funções. Alegavam estar libertos da autoridade do demiurgo (deus de Israel) e, portanto, não aceitavam a autoridade do seu representante.

Especificamente falando, na segunda metade do século II, os ortodoxos, ao insistirem em “um único Deus”, simultaneamente validaram um sistema de governo pelo qual a Igreja seria governada por “um único bispo”. Portanto, a modificação gnóstica do monoteísmo foi vista como – e talvez pretendesse ser – um ataque contra esse sistema. O fato é que, quando os cristãos gnósticos e ortodoxos discutiam a natureza de Deus, eles estavam ao mesmo tempo debatendo a questão da autoridade espiritual. (PAGELS, 1995, p. 63)

A insubmissão dos gnósticos a uma estrutura eficiente de governo estava fundamentada em princípios legítimos para estes, mas absolutamente incompatíveis com aquela intenção de governo baseado na crença fabricada sob medida e imposta com crueldade e violência. O desagrado dos gnósticos quanto ao fato era manifestado sem maquilagem.

Por exemplo: o assunto da ressureição de Cristo na carne era questão fechada para a ortodoxia. Tertuliano dizia que quem negasse a ressureição na carne não era cristão. “É preciso crer porque é absurdo”, dizia ele. Já os cristãos gnósticos interpretavam a ressureição de diversas maneiras. Uma delas é que a vida sem a gnose é como a morte. Depois de o homem conhecer a si mesmo é que o seu espírito renasce. A crença na ressureição como exigia a ortodoxia era chamada pelos gnósticos cristãos de “a fé dos tolos”. A morte de Jesus seria um simbolismo para a mais importante transformação na vida de alguém.

“No entanto, os cristãos ortodoxos insistem que Jesus era de fato um ser humano, e que todo cristão de “reto pensar” deve tomar a crucificação como acontecimento histórico e literal. Para assegurarem-se disso incluíram no credo, como elemento fundamental da fé, a afirmação de que “Jesus Cristo padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”. (PAGELS, 1995, p. 100)

[...] Inácio afirma que “Jesus Cristo”... foi verdadeiramente perseguido sob Pôncio Pliatos, foi verdadeiramente crucificado, e morreu”. Ele se opõe veementemente aos cristãos gnósticos, a quem chama de “ateus”, por sugerirem que Cristo, para eles um ser espiritual, só sofreu e  morreu aparentemente. (PAGELS, 1995, p. 106)

Segundo Pagels, o livro Atos de João, explica que, na realidade, Jesus não era um ser humano, e sim um ser espiritual que se adaptara à percepção humana. (PAGELS, 1995, p. 98) É muito estranha esta contestação indireta da historicidade de Jesus pelos próprios seguidores, ainda que todos se valessem de uma versão comum. Claro que era para que, indiscutivelmente, todos estivessem cerrados em torno de um acontecimento histórico de tamanha importância para eles, o que não ocorria. Mesmo que defendessem outro ponto de vista, os gnósticos cristãos estariam desvalorizando a própria fé sem necessidade alguma, o que não faz o menor sentido. Essa historicidade descaradamente inventada levaria a inomináveis torturas e a morte muitos daqueles que não se submeteram a ela – os hereges.

Nesses primórdios obscuros do cristianismo, muito antes dele chegar ao poder por intermédio de Constantino, alguns argumentam que teria sido essa a causa da hierarquização da igreja e a fonte de seus muitos erros como a Santa Inquisição, Clemente romano argumentava que somente o deus de Israel, governava todas as coisas: ele é o amo e senhor que todos devem obedecer; ele é o juiz e que estabelece a lei, pune os rebeldes e recompensa os obedientes. Deus delega sua autoridade para reinar a líderes e governantes na terra, que são os bispos, padres e diáconos. Aquele que se recusa a obedecer e a dobrar-se diante dos líderes da igreja é culpado de insubordinação contra o próprio mestre divino e recebe a pena de morte. (PAGELS, 1995, p. 64)

Pelo exemplo de Tertuliano e outros, que exigem a interpretação literal da ressureição de Cristo como algo histórico, está clara a necessidade de se inventar uma historicidade fictícia para o cristianismo da parte da ortodoxia cristã, indispensável a sua pretensão política, que ainda é defendida na maior cara-de-pau no meio acadêmico.
Aí está, não só a origem da nuvem escura que pesa sobre os primórdios da Igreja, da qual reclamavam os cristãos Gibbon e Lachatre, entre alguns, que a historiadora Elaine Pagels ora ajuda a dissipar, como o porquê da sua permanência. Foi por isso que o evangelho de João quase não entrou na seleção dos quatro. Ainda bem que não estou na pele destes historiadores cristãos. Não vivo seus dramas íntimos, pois não sou cristão nem religioso. Minha paixão é pela história do cristianismo, pois esta é para mim o retrato bem acabado da Humanidade.
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Referências.

DANIÉLOU, Jean; MARROU, Henri. Nova história da Igreja: dos primórdios a São Gregório Magno. Petrópolis: Vozes, 1966.

GRANT, Michael. História das civilizações: o mundo de Roma. Lisboa: Arcádia, 1977.

JOHNSON, Paul. História dos judeus. Rio de Janeiro: Imago, 1989.

LACHATRE, Maurice. Os crimes dos papas. São Paulo: Madras, 2004.

MESSADIÉ, Gerald. História geral do anti-semitismo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

PAGELS, Elaine. Além de toda crença : o Evangelho desconhecido de Tomé. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos gnósticos. São Paulo: Cultrix, 1995.

PIRENNE, Jacques-Henri. Panorama da História Universal. São Paulo: Difusão Européia do Livro, Editora da Universidade de São Paulo, 1973.

VANDERKAM, James C. Os manuscritos do Mar Morto hoje. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.



quinta-feira, 25 de outubro de 2012

lOKAVENTURAS PENTECA OS TAIS




O que alguns crentes gostariam que ESTIVESSE ESCRITO mas não tem coragem de assumir!


Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome (Capiroto Tentador Chefe Mor dos Quinto), bebendo, fumando, pagodeando, jogando baralho, bilhar ou bingo, assistindo Faustão e todos os programas da Rede Globo, “putarizando e homossexualizando” (essa eu vi no link: ICEC) aí estou eu no meio dessa cambada de raça de víboras!

Porque Deus amou o mundo, de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito, para que todo (evangélico seja ele protestante, tradicional, pentecostal, neo-pentecostal, milenista, pré- milenista, pós-milenista, tribulacionista ou de qualquer teologia que venham a inventar no futuro sendo ela escrita, elaborada e recebida sobrenaturebamente por um bispo(a), apóstolo(a), pastor(a) reverendo(a) ou na pior das hipóteses por um "papa-crente?!" contanto que seja evangélica) não pereça, mas tenha a vida eterna e de lambuja a vitória financeira e imunidade contra todo mal adquirida através da fidelidade nos dízimos, ofertas, e campanhas especiais em uma igreja evangélica (ajudar entidades assistenciais ou necessitados que não seja pelas vias da santa igreja evangélica invalida a imunidade, heimmm).

Mas quanto aos descrentes (todos aqueles que não forem evangélicos, exemplo: “católicos principalmente”, macumbeiros, budistas, testemunhas de Jeová, mórmons, hindus, muçulmanos, o John Lennon, o Cazuza, o Tancredo Neves, a Marilyn Monroe, o construtor do Titanic e demais personalidades que zombaram do Senhor) a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; na panela do capeta, na unha e no garfo do cão o que é a segunda morte.

E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar, o Rio de Janeiro terra da putaria, os botecos, o carnaval, as raves, os homossexuais, o futebol, a mini-saia, o baton, as pinturas de Jezabel, as blusas decotadas e, todo tipo de gentalha, gentalha, gentalha!!! que não seja crente evangélica já não existem mais, escafederam-se, sifú...

Trazei todos os dízimos à uma igreja evangélica, junto com seus votos, ofertas e campanhas especiais (sejam elas da meia ungida, da groselha ungida para passar nos umbrais da porta, da chave da vitória, da bíblia do Pirafaia e todo tipo de invencionice e inspiração sobre-natureba dada pelo Senhor em visão, sonho ou revelação à um bispo, apóstolo, pastor, etc.) para que haja mantimento da minha casa (ou seja, para que nossa denominação se consolide e se perpetue passando de geração em geração, de pais para filhos, netos, bisnetos...), e depois fazei prova de mim me pondo na parede, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal, que dela vos advenha a maior abastança, carros importados, fazendas no Mato Grosso, conta bancária na Suíça, jatinhos e helicópteros particulares, mansões de cinema. E, por causa de vós, repreenderei o fiscal da receita federal, para que não vos consuma o fruto da vossa sonegação; diz o Senhor dos Exércitos e do Ministério da Fazenda também.

E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só: far-lhe-ei um harém de ajudadoras gostosas e saradas que lhe sirvam de escravas sexuais e domésticas para que estejam diante dele 24 horas por dia cumprindo seus caprichos de macho. E viu o Senhor Deus que o homem era cabra bão e não TUFÃO, por isso relegou a mulher a segundo plano fazendo dela capacho do seu marido.

Vinde a mim, todos os que estais endividados e falidos, e eu vos prosperarei, tomai sobre vós o jugo dos bispos, apóstolos, pastores e missionários televisivos que são mansos de lábia e encontrareis a vitória financeira e descanso para vossas almas aflitas e oprimidas pelo SERASA eSPC.

(Inspirado no Evangelho Segundo o Desviado do Pai Kilin de Yeshua capítulo 6 versículo 666 na versão revista, atualizada e desnorteada pela ressaca PENTECA OS TAL).

(todas as palavras em azul são links para leituras adicionais)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Argumentos de Emoção




By Octavio Milliet

“Num universo tão perfeito, onde tudo é tão maravilhoso, as árvores, o mar, os rios, os animais… Todas essas coisas são tão belas, como é que algo assim poderia ter surgido apenas por conta do acaso?”

Esse exemplo acima é o que eu chamo de um argumento de emoção. Eles surgem mais por conta das paixões, da vontade humana de afirmar algo que o afeta, do que de conclusões do intelecto. Não são muito utilizados em debates sérios, se não como demonstrações dos motivos alheios, porém eles vivem aparecendo no senso comum, como verdadeiras justificativas para pontos de vista.

Começo com uma frase simples que desbanca metade desse argumento, pois ele é composto de duas diferentes afirmações: A afirmação da beleza natural, a afirmação da perfeição natural.

Quanto à beleza simplesmente digo: A beleza que nós enxergamos nas coisas do Universo e da Natureza não precede o nosso olhar sobre elas. Ou seja, é do ser humano que parte a noção de beleza, tal como o julgamento de que algo é belo ou feio. Logo, uma linda flor é nada mais que uma flor, até que um ser humano a observe e julgue-a linda. Portanto nada do que surgiu pelas causas naturais é de fato belo, a priori, e assim, nenhum artista foi necessário para criar a natureza como algo belo. Nós achamos a natureza bela pois, se preparem: Ela está na moda. Exatamente, a natureza, as coisas que nela achamos belas e maravilhosas, são não muito diferentes das coisas que nós vemos como belas na moda humana, na arte humana, porém a natureza tem muito mais impacto e afeto sobre nós (mais em uns do que em outros), ela, vamos dizer, é uma moda que “veio para ficar”. As roupas mais belas, vestidos e até a aparência das pessoas, são julgamentos que cada qual faz a partir de sua noção pessoal de beleza, uma noção que pode ou não ser muito influenciada pela cultura que envolve essa pessoa. Uns dizem que seria necessário um artista maior para criar a beleza da Natureza, eu diria que é preciso um senso artístico para de fato observar beleza na Natureza, esse senso, quase todos os humanos possuem, um senso livre de nossas vontades conscientes que busca a beleza nas coisas.

É necessário perceber que a beleza não é um atributo natural da Natureza, ou seja, não existe de forma imanente nas coisas que brotam dela. A beleza é um efeito que certas causas tem sobre certos seres, tal como as causas químicas de algumas flores tem um efeito prazeroso em sua reação nas nossas vias nasais. Fora isso, o cheiro é um cheiro, como qualquer outro, tem apenas um efeito reativo diferente em nós. Poderíamos, tal como as moscas ou os Urubus, ter preferência por odores putrificados, mas não, nós preferimos os cheiros mais… “Suaves”, digamos assim, ao menos a maioria de nós, acho eu. Uns verão beleza em pedras, outros verão elas como pedaços enormes de aglomeração de algum mineral, ou vários. Uns verão uma árvore majestosa e muito antiga, outros verão um belo pedaço de madeira, pronto para ser cortado e vendido como tal. Repito, a beleza das coisas não precede, ou seja, não existe antes que nós, os seres humanos, ou quaisquer seres que sejam aptos para aplicar o conceito do belo, o aplique ao observar as coisas. Antes que alguém ache uma cachoeira algo maravilhoso, ela não passa de ser água que escorre por entre as pedras, ela não é bela, nem feia, é uma cachoeira.

Perfeito. Já falei da beleza, agora falo da afirmação de que a Natureza é perfeita. Bom, a perfeição é tão ou mais relativa que a beleza, em certos pontos, e menos relativa em outros. Pois diferente da beleza onde o quesito “gosto” faz tanta diferença, na perfeição existem certas definições, padrões, fatos. Podemos afirmar que ao ente que é perfeito, nada falta. Podemos falar que ele é eterno e independe do tempo para existir. Podemos afirmar perfeição em um dado atributo de um ser, e não em outros. Podemos dizer que a perfeição se aplica ao ser cuja soma das partes resulta num todo, onde não se precise retirar absolutamente nenhuma parte, ou adicionar qualquer parte, para que ele seja um todo que funcione perfeitamente.

Assim, em muitos sentidos podemos afirmar que a Natureza, o Universo, são perfeitos. Em outros, não. As partes da matéria que compõe o Universo não são absolutamente necessárias para o funcionamento do Todo. Quero dizer, uma galáxia poderia muito bem permanecer funcional sem diversos planetas, luas, até mesmo estrelas. Um planeta poderia continuar em seu processo de rotação, sem conter qualquer vida, aliás, ele poderia nem mesmo ter muita variedade, poderia ser uma rocha de um elemento só. Logo, naquele pressuposto de que a perfeição se dá quando a soma das partes resulta num Todo onde nada se retira e nada mais se soma para mantê-lo em perfeição, a matéria no Universo não é de maneira alguma perfeita, ela é apenas ordinária e funcional.

Mas no intelecto do Universo, no que se refere às leis naturais, estamos falando de uma equação de tamanha complexidade onde muito possivelmente a retirada de qualquer fator poderia resultar na total mudança do Todo, se não, até mesmo na sua total destruição. Desfigure a lei da gravidade, e o momento inicial da existência da matéria no Universo poderia ter sido uma enorme falha, nada disso que conhecemos, muito menos nós mesmos, existiria. Ao mesmo tempo, uma outra configuração da gravidade (fosse ela diferente do que ela é) poderia ter gerado um Universo adaptado, a equação toda iria ter de arcar com essa mudança, ou melhor, iria ser adaptada naturalmente à ela. Até mesmo seres vivos se adaptam a diferentes níveis de gravidade, mas não falo de intensidade, falo da forma como ela funciona, além disso seria pura especulação.

Podemos falar da harmonia dos seres naturais, mas essa também não surtiria muito efeito na natureza selvagem, onde os seres precisam matar uns aos outros em prol da sobrevivência, não apenas dos indivíduos, mas das espécies. Podemos, cada um de nós, observar isso de uma ou outra forma moral, mas a dor é um fato, não um julgamento, um fato que está provado que não é muito agradável para nenhum ser que o sinta, ao menos em escala fatal. Uma harmonia perfeita contaria provavelmente com a eternidade da vida, ou a falta total da necessidade de destruir para continuar existindo. Bom, tanto faz o conceito de cada um aqui para definir o que seria a perfeição e o que é um defeito na vida selvagem, mas se podemos botar defeito, é por não ser perfeito, mas se existe, é por funcionar da forma que é.

Para melhor fundamentar o que eu disse no parágrafo acima: A relatividade da perfeição não chega ao ponto de ignorar as diferenças que ocorrem em relação a cada vida. Uns tem câncer, outros não, se a perfeição natural conta com a continuidade da vida, o câncer desafia essa ideia, ao menos num sentido individual. Na natureza selvagem o que importa não é ser perfeito, é funcionar, é sobreviver.

O movimento dos astros tem fim, estrelas tem fim, são cíclicas, mas consomem aquilo que delas se alimentou (planetas com vida por exemplo) para darem início ao novo ciclo. Certos planetas nem sempre estiveram em rotação num sistema com uma estrela, eles podem antes ser meteoros que colidiram e entraram em órbita de uma estrela qualquer, logo, não são eternos, nem enquanto formação, nem enquanto funcionamento. Nossa querida Terra não é eterna, ela teve um início e ela terá um fim, seja como esse for. Ela pode ser acertada por um grande cometa, ela pode ser engolida por uma poderosa supernova da nossa querida estrela, o Sol. Mas ela tem fim. Porém, assim como na natureza selvagem, o funcionamento do Todo é o que mais importa, a existência de diversos planetas, a contínua inovação, mutação, a vida brotando nos locais mais improváveis, novos fenômenos ocorrendo, ou até, para quem não enxerga dessa forma, o que importa é existir. Para os mais niilistas, nada importa, simples assim.

Portanto a única coisa bela, de fato, é a nossa capacidade de ver beleza em coisas que por si mesmas não são necessáriamente belas, isso é praticamente o oposto da dor. É, aliás, algo que pode dar sentido à nossa existência. Sentar num aglomerado de pequenas pedrinhas, em frente a uma enorme quantidade de H2O, observando essa enorme quantidade de água se mover, observando os seres que por acaso são vivos como nós pulando de dentro dessa água, e outros voando acima dela, em resumo, passar um nascer do sol na beira do mar? Isso poderia não ter significado algum, e para alguns, até que não tem. Mas pode ter, e isso é, na minha opinião (enquanto um argumento de emoção), algo absolutamente maravilhoso, belo e perfeito.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Criação? Seleção Natural? Seleção Artificial. Parte 1



By Provocador

No princípio tudo era trevas, e sentado em sua poltrona branca um ser absurdamente poderoso imaginava uma maneira de criar um mundo. Um poeta daquelas surrealistas que não se deixava prender por ideias racionais, tudo era possível, desde que se permitissem imaginar o inimaginável. Assim era ele. Só sabia de uma coisa: “Tudo deveria culminar num ser que pensasse sua existência. Mas como?

Diante de uma panela ele elaborou em escala reduzida, seu projeto. Chamaria aquela maquete de “Caldo Primordial”. Lançaria ali uma semente, e desta única, pequena e frágil semente um dia surgiria sua obra prima. Tudo se daria por meio de uma luta feroz, uma batalha épica onde apenas os mais fortes sobreviveriam, e quanto mais acirrada fosse a luta entre as espécies originadas a partir do caldo primordial, mais rápida seria a evolução de novas espécies. E nesse contexto sobreviveriam apenas os que melhor se adaptassem. Todos os outros pereceriam. Mas ainda assim demoraria... e como demoraria.

Estava resolvido! Diante da panela onde já continha o caldo o ser poderoso colocou todos os tipos de sais de amônia e de fósforo, luz, calor, eletricidade etc.. Dentro desta panela ocorreria uma reação química  que daria origem a uma proteína que, por sua vez, seria capaz de sofre alterações mais complexas. Ou seja: Uma matéria inorgânica, passaria a ser orgânica, se aplicasse ali o fator tempo. E tempo, acreditem, era o que o ser mais tinha. Eu já disse que o ser em questão era eterno? Agora só faltava lançar o “líquido” no planetinha que ainda não era azul...mas ficaria, dentro de dois ou três bilhões de anos.

Todos os seres deste pequeno planeta, pensava ele, seriam compostos das mesmas substâncias. Seriam a partir de determinado momento, seres com vida, e vida para mim nada mais é do que uma “coisa” que consegue se alimentar do meio em que está (chamarei de metabolismo), e também precisa ter a capacidade de se reproduzir de forma autônoma, ou seja, sem a minha interferência.

Então vejamos: Já tenho o caldo, e os ácidos necessários, só falta o toque final, o sistema solar. O Planetinha de que falei ainda a pouco, por enquanto está muito quente, não passa de uma massa em formato quase esférico e incandescente, vou esperar que ele esfrie e forme uma crosta, e pelos meus cálculos vai demorar aproximadamente três bilhões de anos, tudo bem, estou sem um pingo de pressa. Mas um detalhe importante eu não posso esquecer: Não pode ter oxigênio no planeta. O oxigênio livre só poderá aparecer depois que alguns dos seres saiam do caldo e comecem a realizar um processo que, por enquanto darei o nome de “fotossíntese”. Segundo consta em minhas anotações, o oxigênio é muito reativo, e se quero dar origem a uma primeira molécula menos complexa, preciso esperar que ela se torne mais complexa para que não seja destruída antes de formar.

Outro detalhe importante: Se não pode haver oxigênio, também não existirá aquela camada protetora, deixe-me ver... chamarei de camada de ozônio,  e justamente a radiação que chegará até o planetinha, vinda daquela estrela que deixei próxima dele (Sol), é que acionará o gatilho para o surgimento da primeira molécula, fácil assim. Deixe-me anotar para não esquecer: “Tópico  5 do manual da criação. Radiação cósmica será a única energia capaz de fazer as diferentes substâncias químicas da Terra se combinarem para formar uma “macromolécula”.

Então vou recapitular: Dentro do Caldo Primordial que eu criei, e mantive aquecido, em determinado momento uma macromolécula extremamente complexa, que terá a “estranha” capacidade de se reproduzir sozinha, dará início à “Longa Evolução” (chamarei assim). Este será o primeiro material genético, a primeira molécula de DNA, a primeira célula viva. Ela vai se subdividir, mas desde o começo ocorrerão mutações. Muito tempo depois os organismos monocelulares se combinarão para formar organismos pluricelulares. Logo depois ocorrerá a fotossíntese nas plantas, (Não liguem, já estou dando nome às coisas mesmo. Depois, de alguma forma, e totalmente por acaso, os seres que eu dei origem, darão esses mesmos nomes às coisas) e em seguida o planetinha ganhará uma atmosfera que conterá, agora sim, o oxigênio, pois o oxigênio será o responsável pelo surgimento dos animais que respirarão o ar, (gostei disso...respirarão o ar. Soa tão místico, não é? rsss) e também esta atmosfera terá sua função, que será proteger o planeta dos raios radioativos do Sol, que nesse contexto,não serão benéficos.

A mesma centelha que um dia foi tão importante para o surgimento da primeira célula, também será nociva para todas as formas de vida. Muuuuito legal esta parte! Tudo ocorrerá como o planejado por mim. Mas em momento algum eu interferirei nesse processo. Creio eu que, de tão absurdamente bem bolado este meu invento, eles demorarão quatro bilhões de anos para terem uma pequena noção das dimensões de meu poder. Alguns atribuirão a mim, logo de cara, tudo o que existe. Não estarão errados, mas estarão milhões de anos longe de estarem completamente certos. Não deixarei vestígios, não deixarei pistas. Permitirei que eles adquiram uma mente fantasticamente sagaz, estupidamente inteligente, mas mesmo o “homem” mais inteligente, não difere do cupim mais inteligente, se comparado a mim, eu serei o mistério que os rondará por centenas de milhares de anos. Eu serei a criatura criadora de tudo e de todos, mas não do jeito que eles imaginam.

Muitos se levantarão (Serão chamados ateus) contra o nome que invariavelmente me darão (Deus), mas de qualquer forma, quando o mais sábio de todos perceber que a vida humana, que a origem das espécies se deu por meio de uma batalha pela sobrevivência, e que o mais forte permaneceu, terá que ser honesto o suficiente para reconhecer que alguém precisaria ter dado inicio a tudo. Alguns refletirão a chegarão a seguinte conclusão:

"De que vale o eterno criar, se a criação em nada terminar? Se perderão num imenso nada e, mesmo depois de ficarem famosos por suas teorias, cairão num mar de esquecimento, pois entenderão que não passam de “produtos de suas épocas”, saberão que não são eternos como eu."

Ass. Deus

Edson Moura.

Uma analogia à teoria darwiniana sobre a origem das espécies.


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O efeito reversivo da evolução: remontando a Darwin uma refutação do darwinismo social



By Luís F. de Almeida

O pensamento evolucionista, como é sabido de todos, constitui-se num princípio unificador de toda a biologia enquanto ciência. É igualmente sabido que a própria biologia enquanto ciência vem estendendo suas fronteiras e seu horizonte de pensamento. Augusto Comte já dizia que no século XVIII houve a “absorção do estudo do espírito pela biologia”. Os positivistas, como era de esperar, viam com certo entusiasmo e positivação tal fato. O próprio Darwin, em A descendência do homem, sugeria que o estudo da evolução esclareceria a origem do homem e sua história, e, num futuro distante, a própria psicologia se estabeleceria sobre novas bases. Assim, a biologia, como um todo, move-se por esse afã de poder dar uma resposta a questões que noutros idos eram formuladas e respondidas pelas ciências humanas.


 Mas tal pretensão tem enfrentado ferrenha oposição de psicólogos, filósofos, historiadores e, a meu ver, principalmente dos cientistas sociais.  Nas ciências sociais, qualquer observador mais atento seria capaz de fazer um diagnóstico de “darwinfobia”, uma aversão ao naturalista que não julga necessário nem mesmo ouvi-lo. Ainda que nesses meios se admita a evolução como um fato, incorre em pecado mortal quem fizer decorrer desse fato alguma verdade para as ciências humanas. Mas a que se deveria de fato tal rejeição?


Patrick Tort, filósofo francês que dedica sua vida acadêmica a elaborar uma antropologia darwiniana, enfrenta algumas dessas questões , e nos diz que Darwin foi visto desde o princípio como “fonte de inspiração de teorias desigualitárias modernas, o grande defensor do eugenismo nas suas versões mais duras, o teórico da eliminação dos fracos, o grande legitimador naturalista das expansões ocidentais e, especialmente, do imperialismo vitoriano, o ideólogo fundador do racismo científico, o pai efetivo do darwinismo social e da quase totalidade das sociologias biológicas evolucionistas, e o credenciado justificador do egoísmo triunfante dos possuintes”.


Tais visões sobre Darwin são errôneas e não poderiam nunca ser depreendidas de uma leitura correta da verdade historiográfica e da lógica que o naturalista aplicou no campo da antropologia.


Para entender o repúdio que chega a nossos dias, há que se passar por um engenheiro inglês: Spencer. Seu pensamento é chamado de evolucionismo filosófico, que serve de referência ideológica ao ultra-liberalismo radical do industrialismo vitoriano. A vertente sociológica desse pensamento representa as aspirações da burguesia industrial inglesa: a sociedade é um organismo e evolui como um organismo. A única forma de sobrevivência no seio de uma sociedade de concorrência generalizada é a adaptação. Por isso, os menos aptos devem ser simplesmente eliminados. Spencer e seus sequazes têm um pensamento social que recusa todas as formas de lei de assistência e ajuda aos desfavorecidos, por exemplo.  Trata-se aqui do pai do darwinismo social.


A confusão entre Darwin e Spencer, entre a teoria da descendência modificada por meio da seleção natural e o evolucionismo filosófico-sociológico, terá de fato as piores consequências conceituais, teóricas e políticas na Europa e no mundo, até que a distinção e a oposição reais entre as duas teorias cheguem a ser reconhecidas. (ver P. Tort, 1983).


O esclarecimento dessa confusão se dá pela via de um conceito que, presente em Darwin de maneira não explícita, pode ser depreendido facilmente, a saber, o conceito de “efeito reversivo da evolução”, que foi desenvolvido no Dictionnaire du darwinisme. O termo foi criado em 1983, mas está descrito e opera em desenvolvimentos importantes na antropologia darwiniana.


Pensar tal conceito é debruçar-se sobre uma questão clássica do pensamento social, qual seja, a relação e os limites entre natureza e cultura. Em chave darwiniana, essa questão se problematiza desta forma: como se dá a transição da esfera da natureza, em que operam leis seletivas intransigentes, para a esfera da cultura ou sociedade civilizada, dentro da qual, segundo Tort, condutas opostas a essa lei se consolidam e institucionalizam?


Esse conceito resulta de “um paradoxo identificado por Darwin no seu esforço de pensar o devir social e moral da humanidade como uma consequência e um desenvolvimento particular da aplicação anterior e universal da lei seletiva à esfera do vivo” (Tort, 1996). Consiste na seguinte formulação: a seleção natural seleciona a civilização, que por seu turno se opõe à seleção natural. Esta última, a despeito de implicar a eliminação dos menos aptos na luta pela vida, seleciona uma forma de vida social cuja ética e modus operandi tende a excluir cada vez mais os comportamentos eliminatórios.


Isso se explica porque a seleção natural não favorece e retém apenas variações orgânicas, mas também instintos. Entre eles, os mais favorecidos foram os instintos sociais. Com isso, preservam-se formas de vida civilizada. Na esteira de Darwin, o estado de civilização se caracteriza justamente por um acréscimo de racionalidade, do sentimento de empatia e de diferentes formas morais e institucionais do altruísmo.


Pelo viés dos instintos sociais, a seleção natural, sem “salto” nem ruptura, selecionou assim seu contrário, ou seja: um conjunto normalizado, e por extensão, um conjunto de comportamentos antieliminatórios – portanto anti-seletivos no sentido assumido pelo termo seleção na teoria desenvolvida por A origem das espécies –, como também, correlatamente, uma ética anti-selecionista (= antieliminatória) traduzida em princípios, em regras de conduta e em leis.


Esse conceito, além de desautorizar as pretensões de correntes da sociobiologia, que postulam uma continuidade simples entre natureza e sociedade, fá-lo também ao dogmatismo que postula ruptura (discurso do tipo lévi-straussiano).


Assim, Darwin torna possível (…) um continuísmo materialista que impõe a representação de uma destruição progressiva (pensável em termos de divergência selecionada dentro da seleção natural, ela mesma em evolução e submetendo-se por este fato à sua própria lei antes de entrar em regressão) que se afaste de artefatos teóricos como o “salto qualitativo”, salvando ao mesmo tempo, evolutivamente, a independência final das ciências do homem e da sociedade (P. Tort, 1996).


Mas o principal mérito desse conceito, a meu ver, consiste mesmo em apontar, já em Darwin, os erros da leitura feita pelo darwinismo social.  Definitivamente, Darwin não era um darwinista social.


Referências:

TORT, Patrick. “Darwin lido e aprovado, últimas reflexões sobre a antropologia darwiniana”; Unicamp. Disponível em: <http://www.unicamp.br/cemarx/criticamarxista/08tort.pdf>.  Acesso em 21/07/12.

SOFIANE. “A propósito do livro de Patrick Tort 'O Efeito Darwin': Uma concepção materialista das origens da moral e da civilização”; Corrente Comunista Internacional. Disponível em: <http://pt.internationalism.org/ICConline/2009/Patrick_Tort_O_Efeito_Darwin>. Acesso em 21/10/12.

LACERDA, André L. R. “Abordagens biossociais na sociologia: biossociologia ou sociologia evolucionista”. Revista Brasileira de Ciências Sociais. Volume 24, número 70, junho. 2009. Disponível em:  Acesso em 24/07/12.


Para saber mais:

L. Bonnafé, P. Tort, L’homme, cet inconnu?, Paris, Syllepse, 1992.

M. Denton, Evolution: ume théorie en crise, Paris, Flammarion, 1992 [1985].




quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Entendendo um pouco sobre o islã - ou o islã paralisa as sociedades?



By Joao Marinho


É preciso olhar com mais afinco a história. Vejam, até antes do islã, o mundo árabe era essencialmente tribal, com tribos se matando entre si em uma disputa fratricida interminável, calcada na relação por meio da guerra e com assassinato de meninas, muito similar ao que vimos na China em tempos recentes. E estava muito aquém de seus vizinhos europeus e mesmo que algumas civilizações african
as mais antigas, além dos persas. A rigor, praticamente não havia o que pudéssemos chamar de civilização árabe, pelo menos, não, em termos de um crescimento estável, sustentável e florescimento técnico-científico e filosófico.

A chegada do islã possibilitou, pela primeira vez na história árabe, a formação de um Estado. Maomé se tornou um líder religioso, político e militar - e, embora para a época, tenha sufocado oposições, como de resto se fazia política naquele momento histórico - fundou um Estado, deu o primeiro sentimento de organização política aos árabes e encerrou as guerras fratricidas, inserindo os árabes em um processo civilizatório incontestável, com foco no comércio, sistema jurídico (as escolas jurisprudenciais do islã), um corpo de leis (Shariah) e até mesmo uma sucessão de comando (os califas), ainda que, aqui e ali, houvessem disputas sangrentas de um califado para outro.

A expansão do islã e a assimilação da filosofia greco-romana posterior (a falsafah) levaram o mundo islâmico posteriormente a um florescimento técnico-científico que estava muito adiantado frente à Europa medieval, da astronomia à medicina, da matemática, à filosofia. E até a política, em um sistema de votação que lembrava a hoje democracia. Surgiram as universidades e as madrassas.

Foi por mãos árabes - e islâmicas - que os europeus redescobriram a Antiguidade Clássica, o que possibilitou a vinda da Renascença. Então, o islã não "paralisou" essas sociedades. Essas sociedades só existem, em primeiro lugar, por causa do islã - assim como seu florescimento civilizatório prévio. Talvez com a notória exceção dos persas, que já tinham um florescimento civilizatório anterior e apenas se converteram.

O islã encerrou a matança de meninas, aumentou o direito das mulheres - na era medieval e até o início da Idade Moderna ocidental, as islâmicas gozavam de mais direitos que as europeias, inclusive o de divórcio - e acabou influenciando outros impérios que vieram depois e se converteram, como os mongóis.

Esse histórico é que torna mais difícil a penetração da ideia de laicismo no mundo árabe-islâmico. Porque, se a Europa já conhecia o Estado antes do cristianismo (Império Romano, Macedônios, Gregos, etc), no mundo árabe, o Estado só veio a existir POR CAUSA do islã. Como convencer o islâmico médio da separação entre religião e Estado, se um surgiu por causa da outra, em primeiro lugar?

Além disso, o Ocidente não foi muito "amiguinho" dos islâmicos. Entre os fins de século 19 e início do século 20, colonizaram a região e introduziram o laicismo e a modernidade europeia - que, então, tinha ultrapassado o islã, graças ao advento do Renascimento, depois o Iluminismo, as grandes navegações, etc. etc. - a fórceps, mediante força bruta, exploração e apoio a ditaduras laicas cruéis que prendiam e matavam os clérigos e procuravam proibir a livre manifestação religiosa e diminuir, também à força, a influência da cultura islâmica e estimular sua ocidentalização.

Acerta quem aposta que tudo isso resultou num caldo em que o fundamentalismo islâmico surgiu como opção política cada vez mais importante, pregando o ódio aos ocidentais e aos ateístas do Oeste (o que não era lá tão gratuito) e estimulando as vertentes radicais do islã como um reforço à identidade cultural diante da ocidentalização forçada. Pode parecer estranho, mas as mulheres usando os véus islâmicos hijab e niqab em 1979, durante a revolução de Khomeini que derrubou o antigo xá tinha um significado de libertação, de luta contra a opressão - não o contrário.

Ressalte-se, sobretudo, que o fundamentalismo bebeu em fontes de tradição islâmica para ter esse reforço. Historicamente, as revoluções no mundo islâmico são conservadoras, pela própria teologia muçulmana. Diferentemente do cristianismo, que prega, acima de tudo, um paraíso extraterreno e pós-morte, para o islâmico - embora ele também acredite no pós-morte -, os sinais de benesses divinas são sentidos no aqui e agora, na sociedade e na política. É o conceito de ummah, que é a completa comunidade muçulmana mundial.

A rigor, funciona assim: se a ummah vai bem e prospera, é sinal de que Alá está abençoando - e, nesse contexto, começa a haver flexibilização de costumes e certas tolerâncias. Se a ummah vai mal, é sinal de que Alá está descontente e punindo. A solução? Voltar ao "islã real", eliminar as flexibilizações e fazer a vontade de Alá. Resultado: toda revolução no mundo islâmico, diferentemente do mundo ocidental, tende a restaurar o conservadorismo - e não o contrário. E os fundamentalistas souberam usar isso, porque, já faz tempo, sobretudo com a submissão às potências europeias e depois aos EUA, que a ummah não vai muito bem...

Há um problema adicional: é que o fundamentalista é uma faca de dois gumes. Ao reforçar o radicalismo e pregar o ódio, ele, chegado ao poder, estimulou o terrorismo e tende a fechar o mundo islâmico à interação político-social, tecnológica e científica que poderia resultar em uma "ummah" mais moderna e mais ajustada ao século 21. Aí, sim, podemos falar de paralisação. Aí, sim, é o que vemos nas segundas fotos do Afeganistão e do Irã.

Como resolver isso? A solução não é fácil. O Ocidente tem sua própria agenda política - não podia ser diferente -, que não raro passa por dominações remodeladas, a ummah continua não indo muito bem, os jovens islâmicos, mais permeáveis às mudanças via redes sociais, internet e afins e também à pobreza e à falta de emprego, querem mais liberdade, o fundamentalismo continua forte e cooptando esse sentimento de insatisfação e o sentimento antiocidente que o Ocidente também estimulou. Existe inegável desrespeito aos direitos humanos via religião (gays, mulheres, etc.)... E aí vira esse caldeirão que estamos vendo e a Primavera Árabe já com cara de Outono e um mundo árabe-islâmico cada vez mais intolerante, mais homofóbico, mais machista e cada vez mais desbotado em relação ao brilhantismo medieval.

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