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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Argumentos de Emoção




By Octavio Milliet

“Num universo tão perfeito, onde tudo é tão maravilhoso, as árvores, o mar, os rios, os animais… Todas essas coisas são tão belas, como é que algo assim poderia ter surgido apenas por conta do acaso?”

Esse exemplo acima é o que eu chamo de um argumento de emoção. Eles surgem mais por conta das paixões, da vontade humana de afirmar algo que o afeta, do que de conclusões do intelecto. Não são muito utilizados em debates sérios, se não como demonstrações dos motivos alheios, porém eles vivem aparecendo no senso comum, como verdadeiras justificativas para pontos de vista.

Começo com uma frase simples que desbanca metade desse argumento, pois ele é composto de duas diferentes afirmações: A afirmação da beleza natural, a afirmação da perfeição natural.

Quanto à beleza simplesmente digo: A beleza que nós enxergamos nas coisas do Universo e da Natureza não precede o nosso olhar sobre elas. Ou seja, é do ser humano que parte a noção de beleza, tal como o julgamento de que algo é belo ou feio. Logo, uma linda flor é nada mais que uma flor, até que um ser humano a observe e julgue-a linda. Portanto nada do que surgiu pelas causas naturais é de fato belo, a priori, e assim, nenhum artista foi necessário para criar a natureza como algo belo. Nós achamos a natureza bela pois, se preparem: Ela está na moda. Exatamente, a natureza, as coisas que nela achamos belas e maravilhosas, são não muito diferentes das coisas que nós vemos como belas na moda humana, na arte humana, porém a natureza tem muito mais impacto e afeto sobre nós (mais em uns do que em outros), ela, vamos dizer, é uma moda que “veio para ficar”. As roupas mais belas, vestidos e até a aparência das pessoas, são julgamentos que cada qual faz a partir de sua noção pessoal de beleza, uma noção que pode ou não ser muito influenciada pela cultura que envolve essa pessoa. Uns dizem que seria necessário um artista maior para criar a beleza da Natureza, eu diria que é preciso um senso artístico para de fato observar beleza na Natureza, esse senso, quase todos os humanos possuem, um senso livre de nossas vontades conscientes que busca a beleza nas coisas.

É necessário perceber que a beleza não é um atributo natural da Natureza, ou seja, não existe de forma imanente nas coisas que brotam dela. A beleza é um efeito que certas causas tem sobre certos seres, tal como as causas químicas de algumas flores tem um efeito prazeroso em sua reação nas nossas vias nasais. Fora isso, o cheiro é um cheiro, como qualquer outro, tem apenas um efeito reativo diferente em nós. Poderíamos, tal como as moscas ou os Urubus, ter preferência por odores putrificados, mas não, nós preferimos os cheiros mais… “Suaves”, digamos assim, ao menos a maioria de nós, acho eu. Uns verão beleza em pedras, outros verão elas como pedaços enormes de aglomeração de algum mineral, ou vários. Uns verão uma árvore majestosa e muito antiga, outros verão um belo pedaço de madeira, pronto para ser cortado e vendido como tal. Repito, a beleza das coisas não precede, ou seja, não existe antes que nós, os seres humanos, ou quaisquer seres que sejam aptos para aplicar o conceito do belo, o aplique ao observar as coisas. Antes que alguém ache uma cachoeira algo maravilhoso, ela não passa de ser água que escorre por entre as pedras, ela não é bela, nem feia, é uma cachoeira.

Perfeito. Já falei da beleza, agora falo da afirmação de que a Natureza é perfeita. Bom, a perfeição é tão ou mais relativa que a beleza, em certos pontos, e menos relativa em outros. Pois diferente da beleza onde o quesito “gosto” faz tanta diferença, na perfeição existem certas definições, padrões, fatos. Podemos afirmar que ao ente que é perfeito, nada falta. Podemos falar que ele é eterno e independe do tempo para existir. Podemos afirmar perfeição em um dado atributo de um ser, e não em outros. Podemos dizer que a perfeição se aplica ao ser cuja soma das partes resulta num todo, onde não se precise retirar absolutamente nenhuma parte, ou adicionar qualquer parte, para que ele seja um todo que funcione perfeitamente.

Assim, em muitos sentidos podemos afirmar que a Natureza, o Universo, são perfeitos. Em outros, não. As partes da matéria que compõe o Universo não são absolutamente necessárias para o funcionamento do Todo. Quero dizer, uma galáxia poderia muito bem permanecer funcional sem diversos planetas, luas, até mesmo estrelas. Um planeta poderia continuar em seu processo de rotação, sem conter qualquer vida, aliás, ele poderia nem mesmo ter muita variedade, poderia ser uma rocha de um elemento só. Logo, naquele pressuposto de que a perfeição se dá quando a soma das partes resulta num Todo onde nada se retira e nada mais se soma para mantê-lo em perfeição, a matéria no Universo não é de maneira alguma perfeita, ela é apenas ordinária e funcional.

Mas no intelecto do Universo, no que se refere às leis naturais, estamos falando de uma equação de tamanha complexidade onde muito possivelmente a retirada de qualquer fator poderia resultar na total mudança do Todo, se não, até mesmo na sua total destruição. Desfigure a lei da gravidade, e o momento inicial da existência da matéria no Universo poderia ter sido uma enorme falha, nada disso que conhecemos, muito menos nós mesmos, existiria. Ao mesmo tempo, uma outra configuração da gravidade (fosse ela diferente do que ela é) poderia ter gerado um Universo adaptado, a equação toda iria ter de arcar com essa mudança, ou melhor, iria ser adaptada naturalmente à ela. Até mesmo seres vivos se adaptam a diferentes níveis de gravidade, mas não falo de intensidade, falo da forma como ela funciona, além disso seria pura especulação.

Podemos falar da harmonia dos seres naturais, mas essa também não surtiria muito efeito na natureza selvagem, onde os seres precisam matar uns aos outros em prol da sobrevivência, não apenas dos indivíduos, mas das espécies. Podemos, cada um de nós, observar isso de uma ou outra forma moral, mas a dor é um fato, não um julgamento, um fato que está provado que não é muito agradável para nenhum ser que o sinta, ao menos em escala fatal. Uma harmonia perfeita contaria provavelmente com a eternidade da vida, ou a falta total da necessidade de destruir para continuar existindo. Bom, tanto faz o conceito de cada um aqui para definir o que seria a perfeição e o que é um defeito na vida selvagem, mas se podemos botar defeito, é por não ser perfeito, mas se existe, é por funcionar da forma que é.

Para melhor fundamentar o que eu disse no parágrafo acima: A relatividade da perfeição não chega ao ponto de ignorar as diferenças que ocorrem em relação a cada vida. Uns tem câncer, outros não, se a perfeição natural conta com a continuidade da vida, o câncer desafia essa ideia, ao menos num sentido individual. Na natureza selvagem o que importa não é ser perfeito, é funcionar, é sobreviver.

O movimento dos astros tem fim, estrelas tem fim, são cíclicas, mas consomem aquilo que delas se alimentou (planetas com vida por exemplo) para darem início ao novo ciclo. Certos planetas nem sempre estiveram em rotação num sistema com uma estrela, eles podem antes ser meteoros que colidiram e entraram em órbita de uma estrela qualquer, logo, não são eternos, nem enquanto formação, nem enquanto funcionamento. Nossa querida Terra não é eterna, ela teve um início e ela terá um fim, seja como esse for. Ela pode ser acertada por um grande cometa, ela pode ser engolida por uma poderosa supernova da nossa querida estrela, o Sol. Mas ela tem fim. Porém, assim como na natureza selvagem, o funcionamento do Todo é o que mais importa, a existência de diversos planetas, a contínua inovação, mutação, a vida brotando nos locais mais improváveis, novos fenômenos ocorrendo, ou até, para quem não enxerga dessa forma, o que importa é existir. Para os mais niilistas, nada importa, simples assim.

Portanto a única coisa bela, de fato, é a nossa capacidade de ver beleza em coisas que por si mesmas não são necessáriamente belas, isso é praticamente o oposto da dor. É, aliás, algo que pode dar sentido à nossa existência. Sentar num aglomerado de pequenas pedrinhas, em frente a uma enorme quantidade de H2O, observando essa enorme quantidade de água se mover, observando os seres que por acaso são vivos como nós pulando de dentro dessa água, e outros voando acima dela, em resumo, passar um nascer do sol na beira do mar? Isso poderia não ter significado algum, e para alguns, até que não tem. Mas pode ter, e isso é, na minha opinião (enquanto um argumento de emoção), algo absolutamente maravilhoso, belo e perfeito.

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