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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Da Metafísica e sua rejeição





Me foi feita a pergunta se eu escreveria sobre a Metafísica, pois então, é uma ótima ideia.  Antes de mais nada devo dizer, da Metafísica, basicamente, o indivíduo consegue constituir e conceber, uma vez que conhece o significado do conceito de “Ética”, aquilo que é ou não é de fato ético. Dada essa das minhas conclusões, fica fácil saber se vou rejeitar o conceito de metafísica, ou se acho prudente fazê-lo tal como se costuma fazer por aí.

Metafísica possui um oceano de definições. Ela foi frequentemente definida comoconhecimento ou a procura do Absoluto. “Depois dos fenômenos, queremos conhecer o absoluto; depois das condições, procuramos a razão da existência. A metafísica seria a determinação deste absoluto, a descoberta desta razão.” Liard, ibid., introdução, 1.

Começo então dizendo que eu considero a Metafísica como, enquanto campo da Filosofia, a origem das hipóteses imateriais. Ela é esse campo que estuda as verdades que seus pensadores (os pensadores metafísicos) ão de considerar (estejam eles corretos ou não) como verdades universais. Entendendo que para gerar e desenvolver um conceito metafísico, é preciso considerá-lo como universal, pois ele (supostamente) é parte das ideias adequadas acerca da Natureza, não significa que o pensador em questão o coloque como irrefutável, mas que enquanto ele encontrar caminhos racionais para desenvolvê-lo, ele estará considerando-o como um fato, até que ele se estruture como tal, ou seja descartado como um erro.

A partir daí a metafísica se divide em dois grupos, a metafísica natural e a metafísica do sobrenatural. A primeira, busca pelo pensamento racional e lógico, dar origem às teorias da ciência (enquanto conhecimento humano), já a segunda busca desenvolver hipóteses acerca do mundo com base nas imagens da fé.

Devo já afirmar que se a rejeição do conceito de Metafísica que vem de mentes pensantes se referisse apenas ao segundo grupo, eu estaria dentre os que a rejeitam. Porém, como é comum de ocorrer, ela é por grande parte das pessoas descartada como um todo, o que é um erro, explicarei.

A metafísica é um campo onde ocorre grande parte do desenvolvimento intelectual da filosofia em si. Veja, estamos falando de entes intelectuais, das ideias, pensamentos, esses são todos imateriais. Quando você busca descobrir o contexto geral de um fato apenas por raciocínio lógico, você está no campo da metafísica. Se feito de forma estritamente racional, estamos falando de buscar enxergar o caminho correto dentre as possibilidades tidas como reais, antes que esse caminho seja demonstrado de forma material.

“Todo homem, qualquer que seja, tem o seu sistema, ou melhor, seus sistemas; e é por isso que todos os homens, saibam-no ou não, são metafísicos, na medida em que fazer metafísica não é outra coisa senão sistematizar, quer dizer, organizar ideias. A diferença que possa haver entre os metafísicos de profissão e os vulgares reside no fato de, entre os metafísicos, a sistematização se referir a ideias mais amplas, mais complexas, melhor elaboradas do que as do comum dos homens.” Ch. Dunan, “Ensaios de filosofia geral”, Metafísica.

A partir do que disse logo acima, entende-se em grande parte o motivo pelo qual surgiu da metafísica a busca pelo sobrenatural pois, na falta de evidências materiais, apenas um campo do pensamento que transcende a materialidade poderia encontrar evidências intelectuais de algo sobrenatural, aí, portanto, está o problema. A metafísica racional transcende o material, mas não transcende o natural! Enquanto a metafísica da fé acredita ser possível, pela racionalidade, transcender o natural, o que ao menos para mim é um grande absurdo.

Transforma-se, a partir disso, a metafísica da fé em nada mais que a tentativa de estruturar a pura imaginação humana, e desenvolver fantasias que tentem fazer algum sentido lógico.
Descartando completamente a metafísica da fé, atenho-me agora à metafísica que julgo absolutamente plausível.

“Conhecimento do real por análise reflexiva e crítica, tão radical quanto possível, e pela síntese, tão integral quanto possível, da experiência, particularmente da experiência interior, fundamento e condição de qualquer outra.” Extrato de uma nota de Alfred Fouilée, autor de O Futuro da Metafísica (1889).

Podemos entender até agora que a metafísica teve papel fundamental no desenvolvimento do que mais tarde viriam a ser os diferentes campos da ciência.
Primeiramente utilizada na idade média, para se referir a uma parte da obra de Aristóteles, mais tarde aplicada por São Tomás de Aquino para adaptar o conceito à doutrina cristã, insistindo sobre o caráter racional e não revelado deste conhecimento.

Espinosa irá dimensionar a Metafísica para o sentido que eu dou suporte. Para ele bastou dizer “Deus sive natura” (Deus ou seja a Natureza), limitando pois o desenvolvimento de ideias metafísicas para o real. Eu diria que o atributo da Natureza, o “Intelecto”, que Espinosa utiliza para descrever os entes imateriais do pensamento, teorias e ideias presentes em seu conceito de Deus, é onde trilha a Metafísica. Explico por uma metáfora:

Pense pois que o conjunto infinito das ideias (logo, tanto as conhecidas quanto as desconhecidas na ciência humana) se alonga por um infinito “pano”, obviamente imaterial, que seria o “Intelecto” da Natureza. Todo homem que pensa, ou todo ser dotado da capacidade de inteligir e raciocinar, pratica a metafísica ao andar por esse pano recolhendo e notando a organização das ideias sobre ele.  Para as ideias exatas o homem desenvolveu métodos, tais como os da Matemática, Física, Química, ele soube organizar de forma eficiente os conceitos reunidos da biologia dos seres. Para os pensamentos, as ideias, as hipóteses humanas, as definições do Universo como um Todo, as tentativas racionais de unificar a Natureza para compreendê-la, o trilhar do homem sobre o pano se dá pela metafísica ou, num contexto mais geral, pela filosofia, que podemos dizer, engloba ainda mais áreas do conhecimento.

“A metafísica tenta sobretudo explicar a natureza íntima dos seres, a origem e a destinação de todas as coisas, o modo essencial de produção de todos os fenômenos… a eficácia histórica dessas entidades resulta diretamente do seu caráter equívoco (intermediário entre a explicação teológica e a explicação positiva); porque em cada um desses seres metafísicos… o espírito pode, à vontade, consoante está mais próximo do estado teológico ou do estado positivo, ver ou uma verdadeira emanação do poder sobrenatural, ou uma simples dominação abstrata do fenômeno considerado.Auguste Comte, Discurso sobre o espírito positivo.

Portanto demonstro que, assim como em muitas outras áreas do conhecimento, surgiram trilhares apaixonados e mal guiados que acabaram sendo descartados pelos céticos, tal como o é e deve ser na metafísica, mas assim como a ciência racional prevalece, igualmente deve prevalecer a metafísica racional. Digo isso, é claro, com todo o respeito à liberdade para com aqueles que, por sua própria decisão, pretendem desenvolver pensamentos e mais pensamentos seguindo o trilhar que bem entenderem, concorde eu ou não com ele.

Logo a metafísica, tal como eu a posso definir, o trilhar do descobrimento intelectual, não pelos métodos de cálculos exatos (embora esses possam muito bem se envolver nesse trilhar), mas por meio do desenvolvimento e exercimento da Razão.


Abraço,
Octavio Milliet.*


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Octavio Milliet é o mais novo integrante do blog Mundo Da Anja e seus textos podem ser lidos no link: http://omundodaanja.blogspot.com.br/search/label/Artigos%20Octavio%20Milliet 


2 comentários:

Matheus De Cesaro disse...

Octávio,

Muito boa sua explanação, bem simples e de fácil compreensão. Pelo que percebi és um defensor das ideias do velho Baruch... Realmente, fico admirado quando alguém escreve e destaca suporte ao que Spinoza trás em seu legado, parabéns. Também partilho desta ideia de descobrimento intelectual pelo exercício da razão.

Abraço.

Octavio Milliet disse...

Muito obrigado Matheus! Defendo até que alguém me prove e me convença de que eu estou errado, haha
Até agora ninguém conseguiu, mas na verdade, ninguém nem mesmo tentou! A racionalidade de Espinosa é tanta que eu acho que seria a mais árdua das tarefas (que eu vejo feita apenas por grandes pensadores do passado, embora eu discorde deles) refutar Espinosa. ^^

Abraços e obrigado por ler!

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