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terça-feira, 30 de outubro de 2012

FACES DA RELIGIÃO - I



By Matheus de Cesaro

"Ora, desde o momento em que a doutrina cristã se edifica sobre fatos e não sobre simples conceitos da razão, não se denomina mais somente religião cristã, mas fé cristã... Na igreja cristã, nenhum desses dois cultos (histórico e racional) pode ser separado do outro, como subsistente em separado. O segundo não pode ser separado do primeiro, porque a fé cristã é uma fé religiosa, nem o primeiro do segundo, porque é uma fé racional e erudita."

A Religião nos Limites da Simples Razão - Immanuel Kant 1793


Lendo Kant, racionalmente me peguei a pensar no lado bom da religião, a refletir, meditar e colocar na letra algo que pudesse determinar em tese, o que seria bom e o que seria ruim se tratando de religião como sistema. Há alguns dias, li um texto na Confraria, que falava sobre a idéia de um mundo sem religião, um texto que me levou a conjecturar e analisar o mundo partindo desta premissa, que é a “inexistência da religião”.


Quero nesta reflexão trazer ao leitor um pouco do que em 15 anos estudando e explorando a religião tenho percebido. Seria um tanto, quanto ingênuo, se classificasse a religião como má em um todo, dentro de um contexto absoluto e generalizado, por isso vou dividir essa reflexão em duas partes, traçando um paralelo entre seus pontos positivos e seus pontos negativos, não na necessidade de convencer “a” ou “b” a aceitar e viver a religião ou não, mas sim na intenção de compreender um pouco mais do seu significado e poder de atuação.


Hoje é muito comum ver, ouvir, ler e presenciar situações onde a religião é atacada por alguns, e defendida por outros até com a vida. É muito comum presenciar discussões e debates acirrados em torno deste fenômeno cultural denominado religião. É até interessante perceber que aquilo que em tese tem o sentido de religar, afasta e divide as pessoas com tamanha força e intensidade


A religião e seus dogmas milenares, tem hoje diversos inimigos. Homens que estudaram e estudam para refutar os ideais de cada sistema e cultura em que ela esteja inserida, homens que realmente são inteligentes, mas que talvez em suas próprias arrogâncias, muitas vezes tem feito papel de tolo, como é o caso de Richard Dawkins, que embora exagere e saia do discurso racional para atacar com ironias e ofensas, é o principal articulador ateísta em atividade e com o apoio da mídia. Mas é importante explicar que, ateísmo é completamente diferente de ser alguém contrario a idéia da religião. Hoje, o que percebo é uma grande confusão no meio filosófico e cultural no que diz respeito a esse assunto. Não podemos caracterizar o anti-religião, como ateísta, sem que esse tenha em mente uma tese, um conceito, uma idéia que defenda a inexistência de um Ser Inteligente e Criador, como disse Anselmo “a causa inicial de todas as coisas”. Mas não quero polemizar, nem entrar nesta questão do ateísmo, e sim explanar sobre a questão “religião/sitema”.


Certa vez, ouvi uma frase que desconheço a autoria, ela diz, “A religião é a maior arma na guerra contra a realidade”, e quero começar a explanar sobre o assunto com os leitores, a partir deste princípio que aqui vou denominar como “fuga”. A religião, como sistema atua como principal mecanismo de fuga daquilo que realmente é a nossa realidade, pois nós como seres humanos, quando estamos entregues a religião, transferimos todas as nossas responsabilidades para ela, independente do credo, seja cristão, muçulmano, kardecista, hinduista ou qualquer outro, nós passamos a apoiar todas as nossas ações naquela que denominamos a nossa religião, criamos um sub mundo supostamente “espiritual”, e passamos a lutar e fugir com muito empenho do que seja de fato a nossa vida, o que na verdade é mais cômodo, é muito mais tranqüilo, é mais prático e confortável se adequar a um determinado conto cultural do que enfrentar a realidade de frente. Heinrich Heine, ao escrever seu ensaio sobre Ludwig Börne, ele afirma, “Bendita seja uma religião, que derrama no amargo cálice da humanidade sofredora algumas doces e soporíferas gotas de ópio espiritual, algumas gotas de amor, fé e esperança.” Nesta linha de raciocínio, partindo desta idéia mencionada por Heine, realmente a religião pode amenizar por um determinado tempo muitas das situações que a vida nos propõe enfrentar, mas nunca nos tornará isentos de enfrentar os percalços e intempéries da vida. A idéia religiosa que promete hoje uma vida de sucesso e felicidade, é facilmente desmentida pelo Mestre Jesus, quando afirma aos seus seguidores que estes, “teriam muitas aflições”, João 16.33.

O segundo princípio que quero relatar é o que aqui vou chamar de “bengala política”, ou se preferir para não radicalizar, “interesse próprio”. Sem medo, diria que a religião sempre foi, é, e provavelmente nunca deixará de ser a mais forte aliada dos sistemas políticos. Napoleão Bonaparte, imperador francês e um dos maiores estrategistas que já se viu e ouviu falar diz, “Religião é uma coisa excelente para manter as pessoas comuns quietas”, ou seja, trocando por miúdos, ela faz um excelente trabalho de manipulação e conformismo na mente do ser humano que nenhum outro sistema fará com tamanha perfeição e excelência. Podemos perceber isso analisando um pouco da história da humanidade e das civilizações, iremos perceber que na esfera política é muito comum ver Estado e Igreja de mãos dadas pelo bem da comunidade. Enquanto o Estado explora, a Igreja atua na intenção de manter a comunidade calada e satisfeita em nome de Deus. Eu sei que minha argumentação agora, pareceu um pouco radical, mas se estou a explanar sobre fatores que norteiam a “religião/sistema”, não poderia deixar de mencionar este aspecto.

Mas seguindo esta linha de raciocínio e a ordem dos fatores já mencionados, como fuga, bengala política ou interesse, temos também a questão da comodidade, da inércia, do estar satisfeito com o mito, e não se desprender do habitual, não desejar sair da “caixa de fósforos” da religião. Não ousar pensar e buscar referências mais concretas que lhes proporcionem maior conhecimento sobre os assuntos relacionados com a vida, o mundo, a fé e até mesmo a eternidade. Vou me dar o capricho e fazer uso de uma frase do tolo Richard Dawkins, “Eu sou contra a religião porque ela nos ensina a nos satisfazermos ao não entender o mundo”. A religião insiste nesta idéia de que a submissão e obediência a ela e seus dogmas são princípios básicos para se viver plenamente feliz, em paz e próximos de Deus. Idéia esta,  que de forma alguma posso concordar, pois o que sinto e percebo na crença religiosa, é uma espécie de prisão, algo que nos impede de irmos além, algo que nos mantém imobilizados por regras e penitências pelo não cumprimento das mesmas, viver, crer e esperar na religião uma plena felicidade é um equivoco, é como diz um declaração de Dalai Lama que gosto muito, “Crença religiosa não é uma condição prévia para conduta ética ou para a felicidade”, isto é coerente com o que temos e encontramos no dolorido e confortável chão da vida, nem felicidade e nem conduta ética podem, devem ou estão estabelecidas e garantidas na religião.

Porém, o que mais me assusta, quando estou a refletir sobre os pontos negativos que se revelam na religião, esta relacionado com o fato de milhares de pessoas abandonarem suas vidas para viverem exatamente de acordo com o que as religiões impõe, isso é o que chamamos de “alienação”, algo que é produzido pelos sistemas religiosos de forma sutil e muito bem disfarçada em nome de Deus. Quando falamos em religião não podemos deixar de mencionar, lembrar ou atentar ao fato de muitas pessoas matarem, tirar a própria vida, absterem-se de seus familiares, defender guerras onde milhares de inocentes pagam com a vida pela fúria de um Deus zangado e principalmente, convictos de que estão fazendo o certo, o bem, a vontade do Ser Superior. Os camaradas só podem estar com a mente cauterizada, impossibilitados de evoluir, proibidos de fazer uso da consciência para discernir, literalmente alienados, conduzidos ao mal pela religião em nome do bem. Realmente penso que, um mundo sem “religião/sistema” poderia sim ser melhor, talvez menos ignorante e mais aberto a buscar a evolução humana no âmbito da espiritualidade. Termino esta primeira etapa da reflexão sobre religião com uma frase dita por um comediante famoso, George Carlin,“A religião é apenas controle mental”, o que explica os porquês deste sistema proporcionar e produzir fuga, silêncio, comodismo e alienação. Fiquem atentos amigos, pois logo publicarei a parte 2 desta reflexão, e desculpem-me se não atendi as vossas necessidades, até mesmo porque esse não é o meu objetivo. Abraço e obrigado pelo apoio, sem vocês leitores, toda escrita perde o sentido.

"A verdadeira religião nos prescreve que amemos até nossos inimigos." 

Santo Agostinho


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