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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O efeito reversivo da evolução: remontando a Darwin uma refutação do darwinismo social



By Luís F. de Almeida

O pensamento evolucionista, como é sabido de todos, constitui-se num princípio unificador de toda a biologia enquanto ciência. É igualmente sabido que a própria biologia enquanto ciência vem estendendo suas fronteiras e seu horizonte de pensamento. Augusto Comte já dizia que no século XVIII houve a “absorção do estudo do espírito pela biologia”. Os positivistas, como era de esperar, viam com certo entusiasmo e positivação tal fato. O próprio Darwin, em A descendência do homem, sugeria que o estudo da evolução esclareceria a origem do homem e sua história, e, num futuro distante, a própria psicologia se estabeleceria sobre novas bases. Assim, a biologia, como um todo, move-se por esse afã de poder dar uma resposta a questões que noutros idos eram formuladas e respondidas pelas ciências humanas.


 Mas tal pretensão tem enfrentado ferrenha oposição de psicólogos, filósofos, historiadores e, a meu ver, principalmente dos cientistas sociais.  Nas ciências sociais, qualquer observador mais atento seria capaz de fazer um diagnóstico de “darwinfobia”, uma aversão ao naturalista que não julga necessário nem mesmo ouvi-lo. Ainda que nesses meios se admita a evolução como um fato, incorre em pecado mortal quem fizer decorrer desse fato alguma verdade para as ciências humanas. Mas a que se deveria de fato tal rejeição?


Patrick Tort, filósofo francês que dedica sua vida acadêmica a elaborar uma antropologia darwiniana, enfrenta algumas dessas questões , e nos diz que Darwin foi visto desde o princípio como “fonte de inspiração de teorias desigualitárias modernas, o grande defensor do eugenismo nas suas versões mais duras, o teórico da eliminação dos fracos, o grande legitimador naturalista das expansões ocidentais e, especialmente, do imperialismo vitoriano, o ideólogo fundador do racismo científico, o pai efetivo do darwinismo social e da quase totalidade das sociologias biológicas evolucionistas, e o credenciado justificador do egoísmo triunfante dos possuintes”.


Tais visões sobre Darwin são errôneas e não poderiam nunca ser depreendidas de uma leitura correta da verdade historiográfica e da lógica que o naturalista aplicou no campo da antropologia.


Para entender o repúdio que chega a nossos dias, há que se passar por um engenheiro inglês: Spencer. Seu pensamento é chamado de evolucionismo filosófico, que serve de referência ideológica ao ultra-liberalismo radical do industrialismo vitoriano. A vertente sociológica desse pensamento representa as aspirações da burguesia industrial inglesa: a sociedade é um organismo e evolui como um organismo. A única forma de sobrevivência no seio de uma sociedade de concorrência generalizada é a adaptação. Por isso, os menos aptos devem ser simplesmente eliminados. Spencer e seus sequazes têm um pensamento social que recusa todas as formas de lei de assistência e ajuda aos desfavorecidos, por exemplo.  Trata-se aqui do pai do darwinismo social.


A confusão entre Darwin e Spencer, entre a teoria da descendência modificada por meio da seleção natural e o evolucionismo filosófico-sociológico, terá de fato as piores consequências conceituais, teóricas e políticas na Europa e no mundo, até que a distinção e a oposição reais entre as duas teorias cheguem a ser reconhecidas. (ver P. Tort, 1983).


O esclarecimento dessa confusão se dá pela via de um conceito que, presente em Darwin de maneira não explícita, pode ser depreendido facilmente, a saber, o conceito de “efeito reversivo da evolução”, que foi desenvolvido no Dictionnaire du darwinisme. O termo foi criado em 1983, mas está descrito e opera em desenvolvimentos importantes na antropologia darwiniana.


Pensar tal conceito é debruçar-se sobre uma questão clássica do pensamento social, qual seja, a relação e os limites entre natureza e cultura. Em chave darwiniana, essa questão se problematiza desta forma: como se dá a transição da esfera da natureza, em que operam leis seletivas intransigentes, para a esfera da cultura ou sociedade civilizada, dentro da qual, segundo Tort, condutas opostas a essa lei se consolidam e institucionalizam?


Esse conceito resulta de “um paradoxo identificado por Darwin no seu esforço de pensar o devir social e moral da humanidade como uma consequência e um desenvolvimento particular da aplicação anterior e universal da lei seletiva à esfera do vivo” (Tort, 1996). Consiste na seguinte formulação: a seleção natural seleciona a civilização, que por seu turno se opõe à seleção natural. Esta última, a despeito de implicar a eliminação dos menos aptos na luta pela vida, seleciona uma forma de vida social cuja ética e modus operandi tende a excluir cada vez mais os comportamentos eliminatórios.


Isso se explica porque a seleção natural não favorece e retém apenas variações orgânicas, mas também instintos. Entre eles, os mais favorecidos foram os instintos sociais. Com isso, preservam-se formas de vida civilizada. Na esteira de Darwin, o estado de civilização se caracteriza justamente por um acréscimo de racionalidade, do sentimento de empatia e de diferentes formas morais e institucionais do altruísmo.


Pelo viés dos instintos sociais, a seleção natural, sem “salto” nem ruptura, selecionou assim seu contrário, ou seja: um conjunto normalizado, e por extensão, um conjunto de comportamentos antieliminatórios – portanto anti-seletivos no sentido assumido pelo termo seleção na teoria desenvolvida por A origem das espécies –, como também, correlatamente, uma ética anti-selecionista (= antieliminatória) traduzida em princípios, em regras de conduta e em leis.


Esse conceito, além de desautorizar as pretensões de correntes da sociobiologia, que postulam uma continuidade simples entre natureza e sociedade, fá-lo também ao dogmatismo que postula ruptura (discurso do tipo lévi-straussiano).


Assim, Darwin torna possível (…) um continuísmo materialista que impõe a representação de uma destruição progressiva (pensável em termos de divergência selecionada dentro da seleção natural, ela mesma em evolução e submetendo-se por este fato à sua própria lei antes de entrar em regressão) que se afaste de artefatos teóricos como o “salto qualitativo”, salvando ao mesmo tempo, evolutivamente, a independência final das ciências do homem e da sociedade (P. Tort, 1996).


Mas o principal mérito desse conceito, a meu ver, consiste mesmo em apontar, já em Darwin, os erros da leitura feita pelo darwinismo social.  Definitivamente, Darwin não era um darwinista social.


Referências:

TORT, Patrick. “Darwin lido e aprovado, últimas reflexões sobre a antropologia darwiniana”; Unicamp. Disponível em: <http://www.unicamp.br/cemarx/criticamarxista/08tort.pdf>.  Acesso em 21/07/12.

SOFIANE. “A propósito do livro de Patrick Tort 'O Efeito Darwin': Uma concepção materialista das origens da moral e da civilização”; Corrente Comunista Internacional. Disponível em: <http://pt.internationalism.org/ICConline/2009/Patrick_Tort_O_Efeito_Darwin>. Acesso em 21/10/12.

LACERDA, André L. R. “Abordagens biossociais na sociologia: biossociologia ou sociologia evolucionista”. Revista Brasileira de Ciências Sociais. Volume 24, número 70, junho. 2009. Disponível em:  Acesso em 24/07/12.


Para saber mais:

L. Bonnafé, P. Tort, L’homme, cet inconnu?, Paris, Syllepse, 1992.

M. Denton, Evolution: ume théorie en crise, Paris, Flammarion, 1992 [1985].




6 comentários:

Eduardo Medeiros disse...

O que será que Darwin quis dizer com isto:

“Em algum período futuro, não muito distante se medido em séculos, as raças civilizadas do homem vão certamente exterminar e substituir as raças selvagens em todo o mundo. Ao mesmo tempo, os macacos antropomorfos...serão sem dúvidas exterminados. A distância entre o homem e seus parceiros inferiores será maior, pois mediará entre o homem num estado ainda mais civilizado, esperamos, do que o caucasiano, e algum macaco tão baixo quanto o babuíno, em vez de, como agora, entre o negro ou o australiano e o gorila”.

e com:

“Entre os selvagens, os fracos de corpo ou mente são logo eliminados; e os sobreviventes geralmente exibem um vigoroso estado de saúde. Nós, civilizados, por nosso lado, fazemos o melhor que podemos para deter o processo de eliminação: construímos asilos para os imbecis, os aleijados e os doentes; instituímos leis para proteger os pobres; e nossos médico empenham o máximo da sua habilidade para salvar a vida de cada um até o último momento...Assim os membros fracos da sociedade civilizada propagem a sua espécie. Ninguém que tenha observado a criação de animais domésticos porá em dúvida que isso deve ser altamente prejudicial à raça humana. É surpreendente ver o quão rapidamente a falta de cuidados, ou os cuidados erroneamente conduzidos, levam à degenerescência de uma raça doméstica; mas, exceto no caso do próprio ser humano, ninguém jamais foi ignorante ao ponto de permitir que seus piores animais se reproduzissem”.

????

Luís Fernando disse...

Meu caro, não é à toa que Darwin foi tomado como legitimador do darwinismo social. Mas a questão é que, ao final de suas obras, ao tratar a antropologia por um enfoque evolucionista, ele entendeu que a seleção natural selecionou o seu contrário, conforme apontado no texto. Assim, nesse sentido é que se pode remeter a ele uma refutação do darwinismo social. Se ele, pessoalmente, em algum momento foi racista, será de somenos importância para o pensamento que ele nos legou.

Luís Fernando disse...

Essas ideias estão em "A Descendência do Homem".

Felipe C. Novaes disse...

Se formos começar a boicotar autores devido ao seu racismo e idéias preconceituosas, teremos aí que apagar da história todos os filósofos, antropólogos, biólogos e estudiosos em geral, do século XIX para trás. A questão com Darwin aí é que o foco da teoria evoucionista não é nenhum tipo de idéia preconceituosa.

Luís Fernando disse...

Felipe, concordo com vc. Sei que vc é um cara versado em evolução e psicologia evolucionista. Mas a questão, neste texto, consiste em seguir o rastro de alguns autores que remontam a Darwin uma crítica do darwinismo social. Assim como existem passagens, como a citada, que à primeira vista parecem sugerir esse tipo de pensamento, há outras construções que depõem contra ele. Mas concordo com vc: ainda que Darwin fosse o pior dos racistas, a teoria da evolução se emancipou dele, não depende dele para nada, e tem seu valor epistemológico salvaguardado.

Anônimo disse...

"Se formos começar a boicotar autores devido ao seu racismo e idéias preconceituosas, teremos aí que apagar da história todos os filósofos, antropólogos, biólogos e estudiosos em geral, do século XIX para trás. A questão com Darwin aí é que o foco da teoria evoucionista não é nenhum tipo de idéia preconceituosa."

Até agora não vejo como Espinosa (XVII) possa ser boicotado por conta disso, mas tudo bem. rs

Octavio Milliet

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