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sábado, 3 de novembro de 2012

Entrevista com Anja Arcanja - TEMA FINAL: HOMOSSEXUALIDADE

TEMA FINAL: HOMOSSEXUALIDADE

 No tema final abordamos a homossexualidade e ainda demos uma passada pincelada num tema tão ou mais importante que diz respeito aos mitos, ficou longo, mas, compensa perder uns minutinhos e ler até o final.


[Carlos Carvalho Cavalheiro] Pergunta

– Você já discorreu aqui nesta entrevista algo sobre a homossexualidade segundo a Bíblia. O tema é bastante polêmico e quero deixar claro que a proposta não é atacar e nem defender nenhuma posição, mas sim entender como a Bíblia trata tal assunto. Já escrevi em meu blog um artigo em que faço a diferenciação entre o que a Bíblia diz do assunto – pelo meu entendimento – e se o cristão realmente tem o direito de julgar quem mantém um relacionamento homoafetivo.

                Como disse aqui, você também já falou sobre o assunto de forma tangencial, ao responder outras perguntas. Como este é o nosso último tema, quero abordá-lo de forma a analisar a questão sobre vários ângulos e, tendo como parâmetro aquilo que você já respondeu, elaborar perguntas mais aprofundadas. Começo falando um pouco do que está em Dt. 23.17 – 18. Realmente essa passagem não diz respeito a homossexualidade, mesmo João Ferreira de Almeida tendo traduzido a palavra qadesh por “sodomita”. Tal tradução decorre de um desconhecimento histórico e até esotérico dos cultos sexuais iniciáticos. Os qadeshim (plural de qadesh), que algumas bíblias traduzem como “prostitutos sexuais” eram, na verdade, sacerdotes de cultos antigos em que se realizava a chamada magia sexual, uma prática de transmutação de energias por meio da prática sexual sem derramamento de sêmen e com o objetivo de despertar a serpente kundalini. Por não haver o derramamento de sêmen, em alguns relatos os qadeshim eram tidos como “castrados”. Há uma similaridade aí entre o mito de Lilith que se apaixona por Samael (o Anjo da Morte), sendo este último castrado por Deus por revelar à sua amante (Lilith) o nome secreto de Deus. Os sacerdotes dos cultos sexuais iniciáticos, ou das civilizações serpentinas, realizavam em secreto a prática do que hoje se conhece por tantra ou sahaja maythuna. Não há conotação homossexual alguma nesses cultos. O que existe é desconhecimento dessas práticas que, aos olhos dos leigos, apresentou-se como “prostitutos cultuais” e, daí, como “sodomitas”, homossexuais passivos (por serem “castrados”).

                Nesse trecho de Deuteronômio, portanto, não há mesmo nenhuma citação explícita contra a homossexualidade, mas sim a disputa entre um culto politeísta e o culto monoteísta. Por outro lado, se analisarmos o livro de Romanos (epístola escrita pelo apóstolo Paulo entre 56 a 58 d.C.) parece que não há dúvidas da condenação da prática da homossexualidade no texto bíblico. O contexto histórico é o do governo de Nero, conhecido por um período de extravagâncias, imoralidades e tirania. Nero foi implacável perseguidor dos cristãos.

                Um fato que não é desconhecido – ao contrário, é bastante citado – foi o casamento de Nero com um homem, um liberto chamado Pitágoras, relatado por escritores como Tácitus e Dio Cassius. Nero teria sido o primeiro imperador romano a se casar publicamente com um homem.

                Na Roma de Nero, a sexualidade era tida, ainda, como demonstração de poder. Daí a prática habitual de relações homossexuais entre homens, especialmente de homens de poder e seus escravos. Era hábito, também, as mulheres serem sodomizadas na sua primeira noite de núpcias, como forma de demonstração de poder do homem sobre a mulher.

                Diante de todo esse contexto, em que a homossexualidade era tida como prática social, o apóstolo Paulo escreveu em Romanos: “[...] porque até as mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro. E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm; estando cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade [...]” (Rm 1.26 – 29).

                Honestamente, verifiquei outras traduções, mas com poucas diferenças, nenhuma delas essencialmente contradiz o que está explícito neste trecho. Sei que você já se declarou nesta entrevista como descrente do texto bíblico. Por outro lado, como você encara a advertência bíblica desta passagem, levando em consideração mesmo o contexto em que foi escrita, contra a homossexualidade? A Bíblia não condena a relação homossexual?

Anja Arcanja (resposta)

Carlos, antes de sua pregunta, achei super válida a sua explanação sobre os qadeshim, o que trouxe novas informações, inclusive, algo que não encontramos na bíblia, como por exemplo, o mito Lilith, Samael (que fazem parte das lendas assírio-judaica-babilônica), o culto dos qadeshim, enfim, você já vinha sempre trazendo sempre fontes extra bíblicas, e curiosamente, neste tema você não as apresenta, apenas cita, mas penso que foi de uma importância singular, pois ajudam a desmistificar a bíblia como sendo um livro sagrado (mesmo que para muitos, ela seja), coisa que de forma alguma, a bíblia é. O diferencial da bíblia e de outros livros tão míticos quanto ela, é que ela nos mostra a historia e a cultura além da crença (mítica e mística) do povo Judeu.

E de fato, como você pontuou, não encontramos no antigo e nem tão pouco no novo testamento uma condenação específica à homossexualidade, pois as palavras usadas em hebraico e grego, não se referiam ao homossexual vejamos:

As palavras em hebraico que frequentemente são traduzidos por homem é qadesh e abominação (que subtende-se como sendo algo intrinsicamente mal) em Dt:23.17 e 18, Levítico 18:22 e Levítico 20:13 é   e Toevah

Mas então qual a palavra hebraica que no sentido literal significa homem? É iysh e nada tem haver com o original escrito em hebraico! Se o autor (ou melhor, o escritor) quisesse fazer referencia a simplesmente HOMOSSEXUALIDADE não usaria a palavra iysh, que tão somente significa homem, ou macho?

Ressalto ainda que a palavra qadeshaw, que é traduzida por meretriz ou prostituta, na verdade significa: templo de prostituição feminina, ou prostituta feminina de templo.

Já no novo testamento escrito em grego, encontramos as palavras malakoi, que significa literalmente sem força moral, mole, macio, e arsenokoites ou arsenokoitai, esta última somente aparece em escritos de Paulo e possivelmente ele a tenha criado e seja uma palavra composta de arseno, referindo a macho, e koitai que era uma gíria para sexo. Alguns especularam que Paulo usa esse termo para referir-se aos clientes de prostitutos. Isso pode parecer estranho para nossa mente do século 21, mas devemos lembrar que no primeiro século, ambos, pagãos e judeus condenavam o prostituto, mas não condenavam o cliente. Assim, ele pode ter sido expandido para a perspectiva moral dessa época. Outros especialistas, afirmam que o arsenokoitai refere-se o parceiro ativo, o homem mais velho, na relação da pederastia, e que malakoi o passivo, o garoto que se submetia ao papel feminino, desta forma os dois termos estariam relacionados. Porém, pode também aludir à prostituição cultual.

Mas se eu concordasse e respondesse a você que Paulo poderia estar mesmo condenando a homossexualidade, ainda assim, eu apresentaria algumas questões culturais que são condenadas (ou não) na bíblia (muitas por Paulo mesmo), e que hoje, a igreja desconsidera, como por exemplo: Comer camarão e ostras: “Tudo o que vive na água e não possui barbatanas e escamas será proibido para vocês.” (Levítico 11:12); sobre os fluxos dos corpos (sêmen e menstruação):  "Quando de um homem sair o sêmen, banhará todo o seu corpo com água, e ficará impuro até à tarde... Quando um homem se deitar com uma mulher e lhe sair o sêmen, ambos terão que se banhar com água, e estarão impuros até à tarde. (Levítico 15:16 e 18.) "Quando uma mulher tiver fluxo de sangue que sai do corpo, a impureza da sua menstruação durará sete dias, e quem nela tocar ficará impuro até à tarde. Tudo sobre o que ela se deitar durante a sua menstruação ficará impuro, e tudo sobre o que ela se sentar ficará impuro. Todo aquele que tocar em sua cama lavará as suas roupas e se banhará com água, e ficará impuro até à tarde. Quem tocar em alguma coisa sobre a qual ela se sentar lavará as suas roupas e se banhará com água, e estará impuro até à tarde. Quer seja a cama, quer seja qualquer coisa sobre a qual ela esteve sentada, quando alguém nisso tocar estará impuro até à tarde.” (Levítico 15:19-23); Sobre escravos (quem hoje é a favor da escravidão?) “Escravos, obedeçam a seus senhores terrenos com respeito e temor, com sinceridade de coração, como a Cristo... Vocês, senhores, tratem seus escravos da mesma forma.” (Efésios 6:5, 9); E o que dizer de nós mulheres? Sobre a mulher: “A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio.” (1 Timóteo 2:11-13).

Existem inúmeros textos bíblicos que não mais são seguidos à risca até mesmo pelos mais conservadores e fundamentalistas, mas ainda hoje, ainda persiste sobre os homossexuais o preconceito imposto pela igreja e, seguem a risca (???) o que “está escrito”, mas deveria mesmo ser assim? Porque não poderia também ser revistos tais conceitos sobre a homossexualidade?

Vamos falar agora sobre a carta de Paulo escrita aos Romanos. Pois bem, naquela época, era comum aos romanos, as extravagancias, imoralidades, tirania, como você bem citou e ainda, Roma se destacava pelo seu grande panteão, o que a colocava como um dos povos mais idólatras da época. Uma das práticas comuns aos cultos romanos era a prostituição cultual. Ali, homens heterossexuais se envolviam em rituais homossexuais, o que justifica a expressão: deixaram a relação natural com a mulher. Ou seja, homens heterossexuais, trocaram uma conduta sexual que lhes era natural por outra, contrária à sua natureza, ou seja, uma prática homossexual, simplesmente como fonte de prazer e de expressão ritualística.

Quanto ao sexo entre mulheres, é muito provável que Paulo esteja fazendo referência a duas cerimônias comuns entre os romanos daquela época: o culto a Dona Dea – restrito às mulheres, inclusive com a prática de cópula com animais; e o culto a Baco, ou bacanais, em que o incesto era parte dos ritos de iniciação. O texto faz menção a relações contrárias à natureza praticadas em um contexto bastante específico: a adoração de ídolos e acentua a perversão sexual, como minha vó me ensinou, tudo que é demais sobra: imoralidade e perversão. E todas essas práticas eram contrárias à natureza segundo o pensamento judaico, para o qual a função principal do sexo era a procriação.

Digo ainda, que devemos fazer uma leitura a partir do verso 18 (18 - Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça) ao verso 32 para termos uma visão mais ampla e, para e uma boa hermenêutica, fazermos uma analise do contexto sociocultural.

Ainda sobre este tema Carlos, gostaria de propor a leitura dois links de meu blog:


E este em específico, onde eu debati com um amigo sobre deus e a homossexualidade:



[Carlos Carvalho Cavalheiro] (réplica)

– A sua resposta, Anja, me impele a tecer algumas considerações para esclarecer alguns pontos, mesmo correndo o risco de inverter os papéis e confundir o leitor que pode não ter mais a clareza de quem é o entrevistado e quem é o entrevistador. Ainda assim, sou forçado a fazer tais esclarecimentos porquanto da forma como foi colocada a sua resposta, em alguns momentos, dá a entender que meus posicionamentos tendem a convergir com os seus, ou seja, que o que falei corrobora o que você pensa e não é bem assim. Claro que, como deixei claro desde o início, a minha função aqui é apenas entrevistar, quer dizer, fazer perguntas com a intenção de conhecer quais as suas opiniões sobre determinados assuntos. Não cabe aqui o debate no sentido de eu defender uma ideia para ser contraposta à sua e vice-versa. Não é esta a intenção deste trabalho. Porém, não transcorreria esta entrevista de forma escorreita se eu não fizesse algumas considerações sobre a sua resposta, para, daí sim, retomar o rumo da entrevista. Feitas tais considerações, passo a transcorrer sobre alguns pontos da sua argumentação.
                Com relação a não citação de fontes, isso se deu por considerar desnecessário naquele momento, tendo em vista que estava esclarecendo apenas um fato – no caso, o “prostituto cultual”, muitas vezes confundido erroneamente com o homossexual – já citado por você como confusão de tradução. Isso para afirmar que não iria debater aquele ponto, pois você tinha razão em dizer que havia erro de tradução, embora, penso, não soubesse exatamente do que se tratava o sacerdote dos cultos sexuais iniciáticos das religiões de mistério. O conhecimento que tenho desse assunto é resultado de inúmeras fontes, cursos, estudos... Mas posso citar alguns livros em que se pode encontrar algo: “O Matrimônio Perfeito”, de Samael Aun Weor; “O Poder do Mito” de Joseph Campbell e Bill Moyers. Sobre a mitologia Cananeia e hebraica, há os livros da “Enciclopédia Judaica”. É uma boa referência, embora não seja a única. Cursos de Gnose ou da Filosofia comparada do Oriente e Ocidente (este último da Associação Nova Acrópole) também podem ajudar a entender esses assuntos.

Anja, você afirmou que “E de fato, como você pontuou, não encontramos no antigo e nem tão pouco no novo testamento uma condenação específica à homossexualidade”, dando a entender que eu disse não haver nenhuma condenação à homossexualidade na Bíblia. Não foi isso o que eu disse.  Isso não quer dizer que eu condene ou pregue contra a homossexualidade, pois entendo, segundo a própria Bíblia nos diz, que não cabe a nós, pecadores, julgar quem quer que seja. Ocorre que, se discutirmos o Antigo Testamento, sempre acabaremos na questão: isso foi escrito para os judeus, fazia parte da Lei e agora está ultrapassado para os cristãos. Por isso, o que eu propus é que deixássemos de lado as citações do Antigo Testamente e nos concentrássemos nas do Novo Testamento, uma vez que estas, sem dúvida, dizem respeito diretamente aos cristãos. Simples assim.

Em relação à Bíblia não ser sagrada por ser um livro mítico, gostaria de ampliar o debate acerca do conceito de mito. Não há nada que diga mais a respeito das verdades sagradas do que o próprio mito. Mas o que seria mito? Em nossa sociedade, fundada infelizmente sobre os valores – se é que podemos dizer em “valores” nesta sociedade – burgueses do capitalismo, onde o mais importante é o ter do que o ser; na qual toda a espiritualidade foi cambiada por produtos materiais – daí o sucesso da Teologia da Prosperidade e, ao mesmo tempo, o esfriamento do verdadeiro sentido da fé (curiosamente previsto na Bíblia há quase dois mil anos... Veja, por exemplo, 1Tm. 4.1 – 3; Jd 3; Mt. 24.12 - 13; 2Ts. 2.3; Mc.13.13; 2Pe. 3.3 – 7). Por isso, o sentido espiritual do mito se desfez e muitos o colocam hoje como sinônimo de “mentira”, “histórias da carochinha”, “fábulas”.

O mito é a representação simbólica da verdade, entendida não pelo racional, mas muito mais pela intuição. Assim como a poesia, por exemplo, ou uma obra artística. Segundo Neil Philip, “os mitos são mais do que histórias. Cada mito é uma mina de verdade humana. Os mitos e seus rituais frequentemente eram preciosos segredos”.[1] Joseph Campbell, sem dúvida um dos maiores estudiosos do mito, completa dizendo: “São histórias sobre a sabedoria de vida, realmente são. O que estamos aprendendo em nossas escolas não é sabedoria de vida. Estamos aprendendo tecnologias, estamos acumulando informações. Há curiosa relutância de parte da administração universitária em indicar os valores de vida de seus assuntos”.[2] Infelizmente, a nossa sociedade atual se vangloria de ser a sociedade da informação, mas informação sem aplicação prática não é conhecimento. Perdemos muito da essência das coisas, perdemos nossa identidade, não sabemos realmente quem somos... O mito nos coloca de volta no caminho do qual nos afastamos. Nas palavras de Campbell, “ele nos põe novamente em contato com a arquetipologia essencial de nossa vida espiritual. Ir a um ritual, dia após dia, nos mantém na trilha” (CAMPBELL, 1990, p. 103). Ou ainda: [O mito é a] “literatura do espírito” a qual deixamos de nos familiarizar hoje em dia em prol das “notícias do dia e [...] problemas do momento” (CAMPBELL, 1990, p. 3). E, ainda recorrendo a Campbell, aprendemos que os mitos “ensinam que você pode se voltar para dentro, e você começa a captar a mensagem dos símbolos”, pois, “o mito o ajuda a colocar sua mente em contato com essa experiência de estar vivo. Ele lhe diz o que a experiência é”. (CAMPBELL, 1990, p. 6).
Mitos, portanto, têm a função sagrada de nos religar (como a própria religião) ao espiritual, e são simbolismos que são entendidos pela nossa psique. Por isso, os mitos servem para que possamos “entrar em acordo com a grande sinfonia que é o mundo, para colocar a harmonia do nosso corpo em acordo com essa harmonia” (CAMPBELL, 1990, p. 57). Dessa forma, “os mitos são metáforas da potencialidade espiritual do ser humano, e os mesmos poderes que animam nossa vida animam a vida do mundo” (CAMPBELL, 1990, p. 24).

                Não se trata de acreditar ou não nas histórias, ou seja, nos mitos. Se buscarmos esse caminho, estamos usando do intelecto, do racional para tentar entender aquilo que é simbólico, metafórico e só pode ser entendido em outro nível, por exemplo, pela psique. É tão tolo quanto tentar “entender” uma poesia ou uma música clássica pelo racional... Perde-se a oportunidade de exercitar o seu emocional, de compreender por outros caminhos que não o da razão. Isso soa estranho porque o mundo burguês se fundamentou na razão – vide o Renascimento e, depois, o Iluminismo – só que é esse racional que fez com que este mundo entrasse em crise, pois o uso da razão em todos os aspectos da vida levou ao detrimento de valores como a generosidade, o amor, a justiça, a fraternidade, etc.

Então, dizer que a Bíblia não é sagrada por ser um livro de mitos pode se tornar ambíguo, pois os mitos dizem mesmo sobre o sagrado. Ademais, podemos sim dizer que a linguagem dos primeiros livros da bíblia era de tradição mitológica, o que não quer dizer que seja “mentirosa”, mas, tão somente, simbólica. Por exemplo, a criação do primeiro homem, Adão, nos diz sobre a composição do corpo humano, onde estão presentes os 4 elementos da natureza: Terra, Água, Fogo e Ar. Do barro (terra + água) foi formado, precisou do sol (fogo) para secar e, por fim, teve o ar aspirado em suas narinas.

                Essa linguagem mitológica está presente sim nos primeiros livros do Antigo Testamento por ser uma forma literária comum na época. No entanto, nos livros do Novo Testamento, tais alegorias e simbolismos não estão presentes. O teólogo Craig L. Blomberg, Doutor em Novo Testamento, uma das autoridades mais respeitadas no assunto biografia de Jesus, em citação registrada no livro “Em defesa de Cristo”, de Lee Strobel, diz que os textos dos evangelhos, por exemplo, não contém nada comparável à mitologia. Diz ele: “Pense no modo como os evangelhos foram escritos – de maneira sóbria e responsável, com detalhes incidentais apurados, com cuidado e precisão óbvios. Não encontramos neles os rebuscamentos exóticos e a presença evidente da mitologia que vemos em vários escritos antigos”.[3] Portanto, chegamos a dois pontos: 1) se compararmos a Bíblia com os mitos, ao contrário de isentá-la de seu sentido sagrado, apenas o reforçamos. 2) Não podemos dizer que, do ponto de vista literário, toda a Bíblia é de tradição mitológica.

Assim, qualquer uma das duas afirmações (e até as duas em conjunto) reforça o caráter sacro da Bíblia. E só fiz esse esclarecimento porquanto, da forma como você expôs o seu pensamento, deu margem à ilação de que eu concordaria com a sua afirmativa. Não posso concordar por conta do conceito que tenho sobre o mito, baseado no que estudei e que expus, em parte, nestas minhas colocações.

                Em outras oportunidades eu discorri, ainda que de forma superficial, sobre a exegese que acredito estar correta em relação ao que está no Antigo Testamento e o que é do Novo Testamento. Talvez eu não tenha conseguido ser claro nessas oportunidades e, então, há a sua insistência em dizer que existem condenações na Bíblia (Antigo Testamento), ou seja, na Lei, que não são seguidas hoje e que ou seguimos tudo ou não seguimos nada. Parece que é em essência o que você sempre diz. Perdão, se a interpreto equivocadamente. Quero, entretanto, convidá-la – e aos nossos leitores – para uma exegese (ainda que superficial) do livro de Hebreus. Por que escolhi esse livro? Porque diz respeito exatamente a isso: o que era ser judeu e o que é ser cristão (ou judeu convertido ao cristianismo). A intenção dessa exegese é evitar que continuemos “andando em círculos” na questão se o que diz a Bíblia no Antigo Testamento deve continuar sendo seguido ou não.

O livro se inicia fazendo uma distinção entre os dois tempos: o dos profetas que vieram para os judeus e o de Jesus, Filho de Deus, que veio aos judeus, foi rejeitado pelos seus e, por isso, pode ser aceito pelos demais (Cap. 1). Cristo é o Filho do Homem (expressão usada em Daniel), superior aos anjos e sumo sacerdote de uma NOVA ALIANÇA, eis que não é sacerdote pelos levitas (como era o caso dos judeus), mas pelo sacerdócio de Melquisedeque (Cap. 2, Cap. 5). Jesus é superior a Moisés, significando que a Antiga Aliança mosaica (ou a Lei e os Profetas) estava submissa a NOVA ALIANÇA de Jesus (Cap. 3 e 4). Cristo é superior a essa antiga aliança, portanto, não devemos entender nada desse antigo pacto como algo que devamos seguir enquanto cristãos. No entanto, temos uma nova aliança, a da graça em Jesus, pela qual temos um compromisso a seguir. Não se trata, então, de dizer: “Não importa o que eu faço, pois Jesus já me salvou pela graça da nova aliança”...

O capítulo 6 deixa claro que “deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até a perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento de obras mortas e de fé em Deus”. E continua:

“Porque a terra que embebe a chuva, que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção de Deus; mas a que produz espinhos e abrolhos, é reprovada, e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada”. (vs. 7 e 8). A mesma metáfora usou Jesus em várias oportunidades, dizendo que aquilo que não presta (como o joio ou a figueira improdutiva) será cortado e queimado. Assim, se não houver frutos, a árvore será queimada. Não basta, desse modo, dizer que acreditamos, que falamos e fazemos milagres em nome de Jesus se realmente em nosso coração não tivermos fé Nele e fizermos aquilo que Ele nos ensinou (Mt. 7.21 – 27; Mt. 25. 31 – 46). Não existem, então, eleitos ou predestinados. O que há são os salvos que perseveraram até o fim (2Pe. 2). O antigo pacto (ou aliança) era transitório, mas o novo pacto, em Cristo Jesus, é eterno (Cap. 8). Cristo morreu para que pudéssemos ter direito ao novo testamento, ou ao novo pacto. “Porque um testamento tem força onde houve morte; ou terá ele algum valor enquanto o testador vive?” (9.17). A Lei era a sombra, um rascunho das coisas e bens futuros (Cap. 9 e 10). Mas para termos direito a esse bem futuro devemos perseverar na fé, pois somos salvos não por eleição, nem por carne ou sangue, mas pela fé (Cap. 10 e 11).

                E pela fé damos os frutos (Mt. 13; Tg. 2; Lc. 3.8; Mc. 11.12 -14; Mt. 25.14 – 30), mas teremos a salvação se permanecermos nessa fé e realizarmos o que Jesus nos ensinou, “deixando todo o embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia” (Hb. 12.1), estando em disciplina, suportando a correção (12.7 – 8); permanecendo na caridade fraternal (13.1), mantendo o matrimônio e o leito sem mácula (13.4), pois os que se dão à prostituição e ao adultério serão julgados por Deus (13.4). Em suma, estamos salvos do pecado e da perdição desde que permaneçamos em Cristo e isso significa fazer a vontade de Deus, manifesta e revelada na Bíblia (1 Jo. 2.17; Mt.7.21). O que passou, então? Toda a ritualística do Antigo Testamento, que era apenas sombra (ou rascunho) do que viria depois. Assim, o sacrifício de animais representava simbolicamente o sacrifício expiatório de Jesus. Os preceitos externos em relação à comida, vestimentas, rituais... todos foram abolidos e serviram ao propósito inicial de manter o povo hebreu separado dos demais, na intenção de manter inalterada a Palavra e os propósitos de Deus. Mas isso ficou claro em Atos 10.14 -15, quando Deus esclarece a Pedro que as coisas externas – como proibição de ingestão de certas comidas – foram abolidas. Afinal, simbolicamente, o véu do Templo rasgou-se de cima para baixo, mostrando que o sistema religioso externo do judaísmo fora abolido (Lc. 23.45). O que permanece, então? Aqueles valores atemporais, ou seja, a ética, a justiça, o amor, a fraternidade, o respeito, a generosidade, etc. E a condenação a tudo o que é pecado, como a desobediência, a fornicação, o adultério, o homicídio, a corrupção, a prostituição, a idolatria, entre tantas outras coisas condenadas veementemente em todos os livros e epístolas do Novo Testamento.

                Assim, penso que a homossexualidade quando tratada por Paulo como abominável, não se trata de algo externo da Lei que foi abolida. Não é essa a hermenêutica que deve ser feita. A homossexualidade nunca foi aceita no Antigo Testamento, mas não era algo que pertencesse ao rol dos preceitos exteriores e ritualísticos. Ademais, o fato de ser citada como condenável no Novo Testamento reforça, a meu ver, que esse é um dos casos do que não foi abolido. Se não vejamos: o homicídio, condenado muitas vezes no Antigo Testamento, é, também, condenado no Novo (Ex. 20.13; Dt. 5.17; Mt. 5.21; Rm. 13.9; 1Pe. 4.15; Rm. 1.29).

                Assim, gostaria de, no afã de evitar debates infrutíferos, que nos concentrássemos no Novo Testamento apenas e deixássemos, ao menos por ora, as citações do Antigo Testamento que supostamente falam da homossexualidade. Retornando a questão levantada em Romanos, há sim a possibilidade, dentro do contexto do capítulo, que Paulo esteja falando dos rituais orgiásticos que eram comuns naquela Roma de Nero. No entanto, seriam esses rituais – se houvessem relações homossexuais – deturpações dos antigos rituais da magia sexual, já que essa prática era feita com casais heterossexuais? Por outro lado, se compararmos as outras epístolas de Paulo no tocante a seu ataque a formas religiosas distintas do cristianismo apostólico (como o gnosticismo, por exemplo), veremos uma veemência na sua apologética que não verificamos nesse trecho de Romanos. Isso não é indicativo de que ele não estava tratando de um ritual apenas, mas da prática da homossexualidade em si? Até mesmo porque ele utiliza o termo “paixões”, o que não era o escopo dos rituais de prática sexual.

Anja Arcanja: (réplica)

É Carlos, o mito é assim: ou aceita-se sem questionamentos, ou questiona-se e por isto, se faz presente esta ambiguidade. Porque se para uns não há nada que diga mais a respeito das verdades sagradas do que o próprio mito, para outros não. Pois, para um cristão, Zeus (entre tantos outros seres mitológicos) é apenas uma fábula, um conto da carochinha da mesma forma que para alguns não cristãos, o Deus hebreu está na mesma condição de Zeus, ou seja, um mito. Zeus, como sendo o fruto do inconsciente grego e Deus, como sendo o fruto do inconsciente judaico.  E é óbvio que concordo que a bíblia não é de toda apenas mitológica, mas nos conta a história, cultura e a fé de um povo, os hebreus. Ao querermos afirmar que a bíblia é um livro sacro e a palavra do Deus vivo, desprezamos outros livros (de outros crenças, de outros deuses) que devem ter o mesmo status. Não devemos e nem podemos ver a bíblia como sendo a palavra de Deus, pois, no conceito de vários teólogos, inclusive no meu, ela é apenas um pequeno gotejar da palavra de Deus. Digo isto baseada me meus estudos, na profunda e exaustiva pesquisa feita em vários livros teológicos e leituras suplementares.

Eu tenho comigo que, tanto Zeus como Deus (assim como todos os outros seres míticos), são frutos de nosso inconsciente, para uns, que os tem como verdade absoluta chega ao ponto de ser danoso, pois em prol de manter viva sua fé, se torna capaz de matar. E nestes casos o mito não nos religa com o sagrado, mas, nos conduz ao fanatismo, e mal sabem que Deus não se encontra no sagrado e sim, no profano, é aí que deus habita; em mim, em você.

Para muitos o mito é muito mais que a representação simbólica da verdade, mas, a própria e absoluta verdade, para tantos outros, a razão cientifica da modernidade tirou o assombro do mito. Mas e daí se para alguns o mito não é verdade, pois, buscam vê-lo com os olhos da razão, sendo assim, o mito é apenas uma narrativa simbólica e a forma usada para explicar os fenômenos naturais. O mito é verdade para os que os veem com os olhos da fé, com a alma, e é para estes que assim creem que escrevo; e tenho dedicado não só neste nosso bate papo, nesta nossa troca de ideias, mas, em alguns outros blogs, já que no meu, tento abranger aos dois grupos.

Pode parecer ilógico, mas, por ter conseguido desconstruir antigos conceitos e preconceitos que me foram apresentados e outros impostos, que posso escrever para os que creem e que, segundo antigos conceitos, são impedidos de ter uma comunhão com o sagrado, e também para os que, assim como eu, não creem.

Pois bem, foi muito interessante você ter apresentado uma breve hermenêutica do livro de hebreus, mas discordo de você quando diz que a seu ver “não é esta hermenêutica que deve ser feita” sobre a hermenêutica feita pela TI sobre as cartas paulinas o que diz respeito a homossexualidade.  Devemos sempre ter em mente Carlos, que não existe uma hermenêutica certa, ou melhor, que seja 100% correta porque toda hermenêutica está presa à subjetividade de quem a interpreta.

Carlos, quando você ressalta que há uma insistência minha em dizer que existem condenações no antigo testamento que não são seguidas, é porque eu vejo que o antigo testamento serve de alicerce para os eventos e ensinamentos encontrados no novo testamento. Um é incompleto sem o outro e perceba que, eu não apenas cito no antigo testamento, mas começo nele, e termino com o novo testamento, isto progressivamente e sistematicamente, como deve realmente deve ser feito, e faço assim para mostrar que os textos que são usados para condenar a homossexualidade no antigo testamento, estão aí firmes e fortes e, e por quê? Exatamente porque o antigo testamento é o alicerce do novo. Cito as condenações do antigo testamento exatamente por serem usadas as citações do antigo testamento sobre a homossexualidade ser algo abominável e condenável, sendo assim, porque não observamos também todas as outras condenações? Entende? É algo ilógico, uma hermenêutica torta, tendenciosa e falaciosa. Porque separa-se o que deve ou não ser seguido, o que precisa ser guardado e o que deve ser dispensado.

Como eu disse, faço a análise progressiva e contínua começando no antigo e terminando no novo testamento, como citei na minha primeira resposta:

Sobre escravos (quem hoje é a favor da escravidão?) “Escravos, obedeçam a seus senhores terrenos com respeito e temor, com sinceridade de coração, como a Cristo... Vocês, senhores, tratem seus escravos da mesma forma.” (Efésios 6:5, 9); E o que dizer de nós mulheres? Sobre a mulher: “A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio.” (1 Timóteo 2:11-13).

Quem hoje em dia observa um destes mandamentos descritos nas cartas paulinas? Ninguém! E porque somente a homossexualidade deve ainda estar no rol das abominações e condenações de deus? Seria mesmo da “vontade de deus” ou não seria apenas a vontade dos homens?

Sobre a carta aos romanos e não somente ela Carlos, é possível que Paulo estivesse fazendo referencia a práticas homossexuais da forma que conhecemos hoje? Sim! Mas Porém, pode também aludir à prostituição cultual. Isto é fato e eu não descarto nenhuma das hipóteses e porque não o faço? Exatamente porque a homossexualidade sempre foi vista como algo antinatural e eu seria hipócrita ao negar que os povos antigos não viam com maus olhos a homossexualidade. O que podemos fazer é estando despidos de toda a forma de conceitos e preconceitos, tentar analisar nos escritos de Paulo o que realmente o escritor quis passar, qual a mensagem, etc. mas também devemos ter em mente que, Paulo sendo humano como nós poderia estar preso aos conceitos da época e ao escrever, estar sim condenando a homossexualidade. Mas muitos poderão dizer: Paulo escreveu inspirado pelo Espírito Santo, e eu rebato: ele era humano como nós, sujeitos as mesmas paixões e pode sim ter deixado (e não somente ele, mas todos os escritores bíblicos) os conceitos da época entrarem em seus escritos, pois não é a própria bíblia diz que, o espírito está sujeito ao profeta?

E mais um detalhe que considero importante Carlos, é que não podemos depositar inteira confiança na vulgata (versão bíblica latina que chegou as nossas mãos ) pois Jerônimo perturbou-se sobremodo com as ordens que recebera do papa para extrair, substituir e alterar textos no que conhecemos hoje como uma versão fidedigna, como podemos observar no trecho citado abaixo das Obras de São Jerônimo:

Sobre Jerônimo o papa diz

"Dele disse o Papa Bento XVI: A preparação literária e a ampla erudição permitiram que Jerónimo fizesse a revisão e a tradução de muitos textos bíblicos: um precioso trabalho para a Igreja latina e para a cultura ocidental. Com base nos textos originais em grego e em hebraico e graças ao confronto com versões anteriores, ele realizou a revisão dos quatro Evangelhos em língua latina, depois o Saltério e grande parte do Antigo Testamento. Tendo em conta o original hebraico e grego, a Septuaginta, a versão grega clássica do Antigo Testamento que remontava ao tempo pré-cristão, e as precedentes versões latinas, Jerónimo, com a ajuda de outros colaboradores, pôde oferecer uma tradução melhor: ela constitui a chamada "Vulgata", o texto oficial da Igreja latina, que foi reconhecido como tal pelo Concílio de Trento e que, depois da recente revisão, permanece o texto oficial da Igreja de língua latina.”.

Jerônimo sobre a sua tradução disse assim:

"Obrigas-me fazer de uma Obra antiga uma nova… da parte de quem deve por todos ser julgado, julgar ele mesmo os outros, querer mudar a língua de um velho e conduzir à infância o mundo já envelhecido. Qual, de fato, o douto e mesmo o indouto que, desde que tiver nas mãos um exemplar, depois de o haver percorrido apenas uma vez, vendo que se acha em desacordo com o que está habituado a ler, não se ponha imediatamente a clamar que eu sou um sacrílego, um falsário, porque terei tido a audácia de acrescentar, substituir, corrigir alguma coisa nos antigos livros? (Meclamitans esse sacrilegum qui audeam aliquid in verteribus libris addere, mutare, corrigere). Um duplo motivo me consola desta acusação. O primeiro é que vós, que sois o soberano pontífice, me ordenais que o faça; o segundo é que a verdade não poderia existir em coisas que divergem, mesmo quando tivessem elas por si a aprovação dos maus". (Obras de São Jerônimo, edição dos Beneditinos, 1693, t. It. Col. 1425)."

Carlos, concluo dizendo que, por encontrarmos estas discrepâncias e múltiplas possíveis interpretações dos textos sagrados, possíveis adulterações e ainda, o que para mim, é o principal: sendo eu adepta à teologia inclusiva ou à teologia ortodoxa, estarei sendo separatista, pois no cristianismo sempre existem dois grupos distintos: salvos e não salvos, eleitos e preteridos (a doutrina calvinista me fornece arcabouço para crer que deus escolhe e elege os seus, e condena os demais), bons e maus, os que viverão em eterno gozo e os que viverão em eterno tormento; que prefiro manter-me alegremente afastada da bíblia e do deus bíblico, por não encontrar em suas páginas o suficiente para minha felicidade plena e dos que me são caros, pois seguindo a bíblia, posso dizer que uns são melhores que os outros, mesmo entre homossexuais, e para mim, isto não me serve de base para felicidade.

 [Carlos Carvalho Cavalheiro] (tréplica)

– Há uma questão que gostaria de levantar para que pudéssemos terminar essa nossa entrevista. Parece ser natural do ser humano buscar um parâmetro de conduta que incorra na construção do que chamamos de ética e moral. Com raras exceções – me parece que a pedofilia era uma delas – pareceu-me que você acredita que não há condenação nas diversas práticas sexuais. Não sei se absorvi direito tudo o que você falou, mas foi essa a impressão que tive. Em sua opinião, qual seria o interesse – religioso, político, social ou qualquer outro – da Bíblia em condenar a homossexualidade? Qual seria o motivo de tal condenação? Por que a criação desse parâmetro moral e ético?

Anja Arcanja (tréplica)

Carlos veja bem, diante tudo que escrevi, não podemos de forma alguma afirmar que a bíblia condena a homossexualidade, mas é óbvio que existem sim, margem para várias interpretações.

A idéia de condenação da homossexualidade vem de Philo de Alexandria, que foi um importante pesquisador do Judaísmo, e que viveu entre 20 AC ate 50 DC teve uma grande influência na interpretação bíblica. Em relação à sexualidade ele ensinou que uma das funções primárias de todo homem era a procriação e que toda e qualquer expressão sexual que não produzisse descendência legítima era “antinatural”.

Muito poderão indagar que tal condenação, encontra base no episódio da destruição de Sodoma e Gomorra, o que também é uma inverdade, uma vez que De acordo com Ezequiel 16: 49 podemos concluir que o verdadeiro pecado de Sodoma e Gomorra foi à falta de hospitalidade para com o próximo.

O próprio Jesus, conhecendo o contexto da história de Sodoma e Gomorra que era o de ter pecado por falta de hospitalidade para com o estrangeiro, ao enviar os seus obreiros para anunciarem a mensagem do Reino de Deus, sabiamente usou o exemplo de Sodoma e Gomorra como vemos no livro de Mateus:

“Ao entrares na casa, saudai-a. Se, porém, não o for, tornem para vós outros a vossa paz. Se alguém não voz receber, nem ouvir as vossas palavras, ao sair daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó dos vossos pés. Em verdade vos digo que menos rigor haverá para Sodoma e Gomorra, no dia do juízo, do que para aquela cidade”, (10:13-15).


E assim, persiste até os dias de hoje por pura tradição. E como é de costume, a igreja anda sempre de mãos dadas com o estado, o estado oprime e a igreja conforta falando exatamente o que os fiéis querem ouvir e desde a antiguidade a homossexualidade tem sido vista (erroneamente) como uma ameaça à família, basta ver algumas falas de pastores como o Silas Malafaia, onde ele diz: “pela preservação da espécie” e cita versos bíblicos completamente fora de seu contexto e porque ele e outros fazem isto? Exatamente porque dizem o que suas ovelhas querem ouvir e como o estado anda de mãos dadas com a igreja, apoia. Mas a luta dos LGBTTTS por terem reconhecidos seus direitos, tem mudado um pouco esta história e por isto a igreja tem se levantado ferozmente contra alguns políticos e principalmente contra a comunidade LGBTTTS.

Bom, é isto. Obrigada mais uma vez por ter me dado a oportunidade de poder expor o que penso nesta entrevista e, espero que ela possa ajudar a pessoas que assim como eu, são inquietas questionadoras e desejam encontrar alento e conforto em seus questionamentos.

Bjux

Anja Arcanja


 Leia todos os temas abordados no link: 




[1] PHILIP, Neil. O Livro Ilustrado dos Mitos. São Paulo: Editora Marco Zero, 1996, p. 4.
[2] CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.
[3] STROBEL, Lee. Em defesa de Cristo. São Paulo: Editora Vida Acadêmica, 2001.


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O Sexo dos Anjos... Entrevista com Anja Arcanja



Escritora e poetisa amadora e teóloga. Autora do blog “O mundo Da Anja” (http://omundodaanja.blogspot.com.br/), um blog que conta com diversas parcerias e articulistas, voltado a discutir religião, filosofia, teologia, ateísmo, homossexualidade, sexualidade humana, entre outros temas de relevância; e do blog “Poemas e contos eróticos da Anja” (http://anjaarcanja.wordpress.com/), um blog de cunho erótico. Escreve ainda para os blogs “confraria teológica Logos & Mythos”, "Vida Sofista" e   “Fragmentos Ativos”, além de ter textos publicados em vários blogs e sites.

Carlos Carvalho Cavalheiro - Nasceu em São Paulo em 09 de maio de 1972. Formado em História, Teologia e Pedagogia. Pós-graduado em Gestão Ambiental e em Metodologia do Ensino de História. Professor de História na rede pública municipal de Porto Feliz. Escritor e poeta, escreveu os livros: "A greve de 1917 e as eleições municipais de 1947 em Sorocaba"; "Folclore em Sorocaba", "Salvadora!", "Decobrindo o Folclore", "Scenas da Escravidão", "Histórias que não se contam mais - vol 1", "A História do Preto Pio e a fuga de escravos de Capivari, Porto Feliz e Sorocaba", "Histórias que não se contam mais - vol. 2", "O Peregrino do Caminho do Sol", "Moda da História de Sorocaba", "Vadios e Imorais", "O Mistério Revelado", "Memória Operária", "Folia de Reis em Sorocaba".
Foi co-diretor, juntamente com Adilene Cavalheiro, do documentário "Cantos da Terra".
Produziu os cds "Cantadores - o folclore de Sorocaba de Sorocaba e região" e "Passarela da Saudade" (Diolindo e Almeida).



Um comentário:

Atena disse...

Aprendo muito vindo a seu blog. Como nunca tive paciência nem estômago para ler a bíblia, desconheço muito dos assuntos que vi comentados neste post.
Só faço uma observação: seu entrevistador fala em "verdade", como se ela existisse como algo imutável e definitivo. Meus anos de vida e leituras já me deixaram muito claro que a verdade é altamente mutável, adaptável, quando não distorcida.
Abraços e obrigada pela partilha

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