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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Nietzsche e a superação do niilismo




By Luís Fernando Tedesco

            Michel Foucault reconhecia sua atividade como filosófica e a si mesmo como filósofo por meio de um traço muito característico: o diagnóstico, a “escavação sob nossos pés”. Tal atividade, segundo ele, pode ser remontada a Nietzsche como um marco inaugural e signo distintivo do pensamento contemporâneo¹. Neste texto, serão tecidas considerações sobre o diagnóstico nietzschiano para a civilização ocidental e a profilaxia que o filósofo indica a partir disso.


            O niilismo, grande doença do homem moderno, é o diagnóstico de Nietzsche para a civilização ocidental. Mas o filósofo não se limita a apenas fornecer um diagnóstico: trata-se, de igual modo, de apontar formas de superação dessa condição “patológica”. Para tanto, é mister que se expliquem os mecanismos por meios dos quais a doença se constituiu. Tal movimento de elucidação, longe de um dogmatismo que procuraria uma “verdade histórica” do fenômeno, toma por via a reconstrução hipotética do movimento histórico através do qual determinados “tipos” culturais teriam logrado domínio sobre outros, até que por fim se chegasse ao homem moderno, a que Nietzsche também chama “último homem”.


            O primeiro ponto a considerar é a presença do “ideal ascético”, ou seja, a negação da vida, na gênese do homem como ser civilizado. Por esse princípio, constituiu-se a noção de “homem”, sem a qual não teria sido possível a superação da animalidade.  A civilização só foi possível quando o homem se distanciou dos outros animais, representando-se como um animal superior. “Para fazê-lo, porém, tivemos de inventar um 'outro lado' da animalidade – um espírito, uma alma, uma razão – e afirmá-lo contra a animalidade, recusando e negando tudo aquilo que em nossas vivências constituísse este nosso lado natural: instintos, afetos, desejos, etc”.²


            Tal processo implicaria um terrível peso, a saber, o peso da vida em sociedade, da consciência sujeita a regras, da suspensão dos instintos. O filósofo ilustra desta forma: “O mesmo que deve ter sucedido aos animais aquáticos, quando foram obrigados a tornar-se animais terrestres ou perecer, ocorreu a esses semianimais adaptados de modo feliz à vida errante, à guerra, à aventura – subitamente seus instintos ficaram sem valor e 'suspensos'. A partir de então deveriam andar com os pés e 'carregar a si mesmos', enquanto antes eram levados pela água: havia um terrível peso sobre eles”.


            É nessa transição da vida errante e aventureira para a vida domesticada que Nietzsche vê um movimento liderado pelos “fracos”, por aqueles que, na natureza selvagem, eram sobrepujados e dominados pelos “fortes”.


            Assim, da visão dos fortes de sua dominação como algo natural e positivo e da visão oposta dos fracos como algo terrível e que deveria ser extirpado surgem dois modos de estabelecer valores, a saber, a “moral de senhores” e a “moral de escravos”.


            A moral dos escravos, para Nietzsche, tem origem no mecanismo reativo de inveja e ressentimento e seria a entrada na civilização. Por essa forma de valorar, construiu-se uma imagem de homem ficcional que se ampara sempre em dualidades como alma e corpo, bem e mal, etc. Os fracos identificam os fortes como maus, rejeitando os impulsos naturais, por não suportarem a realidade – já que nela são dominados. Procuram assim se equiparar aos fortes, reduzindo e anulando a força que os subjugava. E fazem-no criando um padrão de medida artificial, a igualdade universal, para servir de critério de bem, como critério de constituição de uma sociedade pacífica e justa. Os senhores eram ativos, e não reativos, pois agiam apenas segundo seus impulsos naturais. Dessa forma, pode se entender de que maneira o filósofo concebe o ideal ascético como elemento fundante da civilização.


Qualquer sentido é melhor do que nenhum


            Com o enunciado acima, Nietzsche demonstra que o processo civilizatório, conquanto tenha negado a vida, tem um saldo positivo: por meio dele, foi possível dar um sentido à existência e, a partir daí, puderam surgir as grandes realizações culturais.


            O ideal ascético do fraco deu uma justificativa a nosso viver, nosso querer, nosso sofrer. Se tivéssemos permanecido na fase original, a pujança dos fortes não nos teria tornado grandes criadores, dada a sua incapacidade de dotar a vida de uma direção e igual incapacidade de interpretar.  Nas palavras do filósofo: “A interpretação – não há dúvida – trouxe consigo novo sofrimento, mais profundo, mais íntimo, mais venenoso e nocivo à vida: colocou todo sofrimento na perspectiva da culpa. (…) Apesar de tudo – o homem estava salvo, ele possuía um sentido, a partir de então não era mais uma folha ao vento, um brinquedo do absurdo, do sem sentido, ele podia querer algo -, não importando no momento para que direção, com que fim, com que meio ele queria: a vontade mesma estava salva”.


            A tábua de deveres do ideal do “reino dos céus” impunha ao homem o sacrifício dos elementos naturais como condição para a ascensão ao reino dos céus. Mas, como já se disse, isso ainda era um forma de dar sentido à vida. A despeito de tudo, a existência tinha assumido uma meta, uma direção.


Morte de Deus


            O niilismo se instala precisamente no momento em que todos esses grandes sentidos, grandes valores, grandes justificativas se esvaziam. A morte de Deus na modernidade e a secularização, entendida como esse mesmo esvaziamento, engendram o niilismo. A propósito da morte de Deus, escreve Nietzsche:


            “Nós o matamos, vós e eu! Nós todos somos os seus assassinos? Como fizemos isso? Como pudemos tragar o oceano?  Quem nos deu a esponja para remover o horizonte inteiro? Que fizemos nós quando desprendemos esta Terra de seu sol? Para onde se move ela, então? Para onde nos movemos nós? (…) Não nos precipitamos sem cessar?”


            Tal vazio opressivo esmaga a consciência do homem moderno, que ainda não compreende a dimensão épica de seu feito, produto da luta empreendida pela ciência contra as “trevas da ignorância”, dada pelo movimento do esclarecimento, cujo sentido e direção já estavam presentes no logos socrático, no germe da racionalidade científica que já figurava na dialética socrática.


            O vácuo deixado pela morte de Deus revela que o homem moderno estava preso a uma crença que vinculava o sentido da vida à existência de Deus. Não havendo Deus nem referências externas de valor, a vida esvaziou-se de sentido e o homem perdeu sua razão de ser, sua finalidade, sua meta.


            “Desse ponto de vista, o maior problema da modernidade ocidental, a principal causa de sua atual doença, não seria tanto o pertencimento à tradição judaico-cristã,  mas o fato de ela representar a decadência dessa tradição, aquilo que seria seu melancólico fim.”


            A noção de morte de Deus, em Nietzsche, não consiste apenas numa particularidade ou num conceito avulso de seu pensamento, mas antes fundamenta um ateísmo que serve de base a suas doutrinas, como eterno retorno, vontade de potência, transvaloração de todos os valores, etc.


Transvaloração de todos os valores


            Em sua autobiografia, Nietzsche escreve: “Transvaloração de todos os valores: eis a minha fórmula para um ato de suprema autognose da humanidade, que em mim se fez gênio e carne”.


            Através dessa fórmula, Nietzsche entende o resgate do homem como um caminho que deve instaurar uma nova meta, novos valores, articulados a uma interpretação inteiramente nova do mundo. Trata-se agora de construir uma via que supere a falência de um ideal ascético que dava sentido à vida e servia de parâmetro à criação de valores mediante a negação da vida, isto é, através de um outro mundo, artificial, que funciona como padrão de medida.


            É nessa esteira que se instrumentaliza seu conceito de “vontade de poder”, como uma forma de se opor ao instinto de sobrevivência, que estaria por sua vez estaria comprometido com uma postura que adotaria a permanência tal como se está, e não apontaria para um caminho de ascensão e superação. Para o filósofo, a vontade de potência seria a força motriz desse movimento em direção à superação e a significação a partir deste mundo, sem recorrer a outro.


            Se por um lado há o esgotamento das possibilidades valorativas a partir de referenciais externos ao homem e ao mundo, por outro irrompe juntamente com isso um caminho para se criem sentidos a partir dos impulsos naturais, da vontade de potência, num retorno da capacidade de acreditar que estaria na origem da superação da doença niilista do homem moderno.


Cura pela singularidade


            O ideal ascético pecava por assumir uma perspectiva externa ao mundo para julgá-lo. Agora, depois de sua falência, cumpre que o princípio dionisíaco assuma sua função e oriente o homem em direção a uma nova condição. Esse novo princípio, que responde pela afirmação incondicional da vida, deve orientar o pensamento à criação de perspectivas valorativas inscritas neste mundo mesmo, capazes de intensificar a vida, justificá-la, afirmá-la; e não mais negá-la.


            Mas a novidade [e que esse caminho, da convalescença,  por ser uma recusa do ideal ascético, já não se pauta por verdades externas e universais, mas segue a vereda das verdades internas, singulares, capazes de dar a cada vida, individualmente, um sentido próprio, igualmente singular.


            Chega-se enfim na modernidade a essa condição de solidão em que o indivíduo tem de recorrer a si mesmo para se salvar; no caráter singular de suas vivências pessoais é que estaria escondida a possibilidade de um sentido para a existência. Será essa, a partir de agora, a “grande política”. E nesse afã de uma grande política é que o profeta nietzschiano, Zaratustra, demonstra sua exemplaridade:


            “Ainda não vos havíeis procurado a vós mesmos: então me achastes. Assim fazem todos os crentes; por isso valem tão pouco todas as crenças. Agora, eu vos mando perder-vos e achar-vos a vós mesmos; e somente depois que me tiverdes renegado, eu voltarei a vós.”

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Notas

1- “Eu busco diagnosticar, realizar um diagnóstico do presente: dizer o que nós somos hoje e o que significa, hoje, dizer o que dizemos. Esse trabalho de escavação sob nossos pés caracteriza desde Nietzsche o pensamento contemporâneo e, nesse sentido, posso me declarar filósofo.” - Michel Foucault, em entrevista a P. Caruso publicada originalmente em La fiera letteraria, n. 39 (setembro de 1967) e reeditada em Dits et écrits I (p. 601-620).

2 - MATTOS, Fernando C. Como combater o niilismo. Revista MenteCérebro & Filosofia: Nietzsche São Paulo, vol. 3, p. 54.

3 – Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 125: “O homem louco”. Trad. O. Giacoia Jr.



Referências

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, 181 p.


MARTON, Scarlett. Nietzsche Hoje? São Paulo: Ed. Brasilense, 1985, 201 p.

MATTOS, Fernando C. Como combater o niilismo. Revista MenteCérebro & Filosofia: Nietzsche São Paulo, vol. 3, p. 52-61, 2011.


2 comentários:

Matheus De Cesaro disse...

Nobre Amigo Luis,

Muito interessante seu texto.

Estou relendo Ecce Homo depois de alguns anos, e sou um cara fissurado em Nietzsche desde a adolescência, ou seja, já são mais de 15 anos de leitura.

Não consigo perceber Nietzsche como um "ateu" como a grande maioria dos criticos de suas obras. Até mesmo porque que o ateísmo que defende suas idéias em Nietzsche, é um ateísmo pobre e equivocado, pois quando Nietzsche afirmava que "Deus estava morto", ele não se referia a um ser em essência, logo, essa expressão "matar a Deus" significava, noutras palavras, matar o “dogma”, o “conformismo”, a “superstição” e o “medo”, e não aceitar mais a imposição de regras cristalizadas, que impossibilitam a superação e a transcendência, além da auto-afirmação do ser humano, que luta incansavelmente para libertar-se elevar-se em sua saga existencializada. Partindo desta premissa, se a definição de Nietzsche como ateu, por não acreditar na religião é fato, não tenho como não me classificar desta forma, pois creio em um ser em essência e não em uma religião pobre, cega e nua. SE não me engano tem um texto que escrevi faz algum tempo aqui no Blog da Anja que fala sobre "O Falso ateísmo de Nietzsche".

Por exemplo, este texto abaixo, que é utilizado por algumas correntes ateístas, se analisarmos vai parecer meio incoerente com a vida de Nietzsche em relação a provar ou não a existência de uma Força Motora Inicial.

“Já ouviu falar daquele louco que acendeu uma lanterna numa manhã clara, correu para a praça do mercado e pôs-se a gritar incessantemente: “Eu procuro Deus! Eu procuro Deus!". Como muito dos que não acreditam em Deus estivessem justamente por ali naquele instante, ele provocou muita risadas... “Onde está Deus!”, ele gritava. “Eu devo dizer-lhes: nós o matamos – você e eu. Todos somos assassinos... Deus está morto. Deus continua morto. E nós o matamos..."

(Friedrich Nietzsche (El Bigodon), Gaia Ciência (1882), parte 125.)

Eu percebo que o anúncio da morte de Deus, portanto, não se trata de propagar idéias anti-teístas. Não pretende ser a disseminação do ateísmo. Mas em erigir um novo conceito sobre o homem e sobre Deus. A morte de Deus, para Nietzsche, representa o fim e o declínio da formulação do Deus que a metafísica clássica ocidental construiu, o de ser absoluto e supremo. Quer dizer que a ideia do Deus do cristianismo deveria morrer na consciência do ser humano enquanto mantenedor do sistema tradicional de valores e codutas morais.

Agora me diga: Como alguém ousa dizer que Nietzsche era ateísta, se o mesmo, declara sua morte (religião, dogmas e afins), trazendo em sua tese doida e enfurecida a necessidade de que alguém ocupe o lugar do morto, nem que seja o próprio homem, o super homem como ele afirmou? Para morrer tem que existir, certo? rsrsrs

Luís Fernando disse...

E aí, Mateus! Muito bom o seu comentário.

A propósito do ateísmo de Nietzsche, sabemos que ele mesmo se diz ateu em Ecce Homo, diz que ateísmo lhe era uma questão instintiva, que Deus era uma indelicadeza para conosco e, em seu lugar deveríamos nos importar com outras questões, como a alimentação, por exemplo (Aforismo 1 de "Por que sou tão sábio").

Um dos grandes comentadores de Nietzsche, o professor da Unicamp Oswaldo Giacoia, vê em Nietzsche um ateísmo radical.

A questão é que, como vc bem apontou, ele não se equipara ao ateísmo militante que conhecemos nem ao ateísmo que procura demonstrar com argumentos teológicos e filosóficos que Deus não existe. Na Alemanha de sua época, tal crítica já havia sido feita e a filosofia, através dos jovens hegelianos de esquerda e de Marx, já tinha assumido uma postura deliberadamente ateia. Além de ter sido feita anteriormente pelos franceses e ingleses. Nietzsche procura então se ater às implicações morais da ideia de Deus. Em seu diagnóstico de niilismo, percebeu que os valores tradicionais tinham sido reduzidos a nada, mas, ainda assim, eram sempre conservados.

Eu, particularmente, em razão dos fatos apontados acima, prefiro tomar Nietzsche como ateu mesmo, mas um tipo muito diferente: daqueles que procuram levar a crítica da religião a sua plena realização. É bem verdade que, no século XX, alguns teólogos tomaram a morte de Deus como uma falência de um modelo de divindade, que deveria dar lugar a outro, tal como vc propôs que se fizesse a leitura em Nietzsche.Tenho muito interesse nessas leituras que, como a sua, procuram entender a falência de um modelo de divindade como um caminho aberto para uma nova relação com a própria divindade. Espero que um dia você possa me falar mais sobre como entende essa questão

Abraço, meu querido!

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